Mito & medo

Mito & medo

José Renato Nalini*

16 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Nossos tempos ambíguos e confusos forçam o convívio de antagonismos. Os contrários parecem se atrair. A polarização ideológica não é metáfora, mas experiência real no convívio rotineiro. Divisão na própria família, no trabalho, na Igreja e na vida social.

A superficialidade no perfil dos educandos das novas gerações não autoriza a conclusão de que todos sabem o que estão falando quando gritam “mito”. É um verbete de inúmeros significados. Não é lenda, aquela narrativa de cunho geralmente edificante, “para ser lida”, pois sua origem é o latim “legenda”. Nem é fábula, breve narrativa de caráter imaginário, elaborada para transmitir ensinamento moral. Também não se confunde com parábola, o conto produzido de maneira intencional para criar simbolismo destinado a reforçar princípios religiosos.

O mito pretende exprimir o mundo e a realidade humana, cuja essência chegou até o presente, persistindo durante várias gerações. E nessa pretensão de explicar o mundo e o homem, “isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações”, na linguagem de Junito de Souza Brandão, em “Mitologia Grega”.

Para o autor, a sociedade industrial usa o mito como expressão de fantasia, de mentiras. Daí deriva a palavra “mitomania”. Roland Barthes procurou reduzir o conceito de mito, apresentando-o como forma substituível de uma verdade.

Enquanto o mito estimula a fantasia, a verdade não consegue disfarçar o medo. Sentimento experimentado por todas as pessoas, e significativamente exacerbado nesta época de tantas ameaças concretas, que não podem ser escondidas.

Há quase um ano e meio, surgiu a peste que começou a levar os idosos. Isso fez a zelosa funcionária do INSS afirmar que a morte de aposentados e pensionistas seria um alívio para as contas previdenciárias. Mas vieram segunda e terceira onda, o colapso do sistema público de saúde, óbitos nas filas de espera para a UTI, insuficiente para atender à demanda.  As mortes por falta de oxigênio são dolorosas e causam pavor e o pânico do “fungo negro” adicionou-se à sensação de extrema vulnerabilidade.

Já não são apenas os idosos os alvos preferenciais da COVID-19:  jovens também são vitimados pela praga invencível.

Coexistem a fantasia do mito e o medo real. Ou os mitômanos foram poupados do medo? O escritor italiano C.P.Bona, dizia que o primeiro grau do heroísmo é vencer o medo, enquanto Bertold Brecht proclamou: “infeliz do país que precisa de heróis”.

O medo de ser infectado é hoje o sentimento que os brasileiros com juízo deveriam sentir. A cifra de meio milhão de mortos será, infelizmente, ultrapassada. É sensato temer. Perguntem ao familiar que perdeu pessoa querida, se ele teme essa doença. Indague-se a quem já foi infectado e, por verdadeiro milagre, conseguiu sobreviver, se ele não tem receio de uma recidiva, pois a vacina não impede a reinfecção.

Para os brasileiros, o medo da enfermidade não é o único. Teme-se a perda do emprego. Há o temor do amanhã. Pleno de incertezas, pois o país mergulhou num desastroso combo de crises, das quais não é fácil, nem simples, sair. As infrações éticas logo converteram-se em profunda crise moral, que gerou crise econômica e política e veio a ser tragicamente coroada com a crise sanitária.

O medo nacional insere-se no medo mundial, decorrente do maior desafio que a humanidade enfrenta: as consequências do aquecimento global.

Presente no decorrer de toda a história da humanidade, o medo costuma fazer companhia aos seres racionais, com maior ou menor intensidade, consoante as circunstâncias. Parece inusitado que aqueles que correm maior risco comportem-se como se não tivessem medo. O poeta Virgílio disse que “o medo acrescentou lhe asas aos pés”, para afirmar que se deveria estar sempre longe do perigo, correr dele, não ir-lhe ao encontro.

O que significa brincar com o perigo? Ignorar que “o medo é um dos soberanos da humanidade. É quem possui o maior domínio de todos. Ele faz-nos embranquecer como velas. Fende cada um de nossos olhos em dois. De medo foi criado bem mais do que de qualquer outra coisa. Como força moldadora vem logo depois da própria natureza”, nos legou Saul Bellow.

Tempos estranhos de medo e mito tão entranhados.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.