Miséria: ai de quem não se condói!

Miséria: ai de quem não se condói!

José Renato Nalini*

26 de junho de 2020 | 07h30

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A pandemia causou prejuízo imenso ao planeta. No Brasil, ela serviu para escancarar uma realidade que o complexo de Poliana queria manter sob o tapete: a crescente miséria dos brasileiros.

Surreal assistir às filas formadas junto às agências bancárias, dos candidatos aos seiscentos reais do auxílio-emergência. Mais doloroso ainda, verificar que milhões não conseguiram obtê-lo, porque o sistema ainda é falho e impeditivo para os excluídos. Onde a banda larga para todos? Onde o acesso imediato e gratuito a todos os aplicativos e a internet universalizada?

Embora o Brasil possua 270 milhões de mobiles, aqueles disponíveis para os carentes não ocupam o ranking dos mais sofisticados. Nem se subestime a faixa dos que nunca tiveram condições de se habilitar para o uso eficiente das novas tecnologias.

O quadro é dantesco. Pessoas se arriscam à contaminação, porque não têm o que comer. A miséria se alastrou e é uma chaga aberta, a merecer não apenas a reflexão, mas providências drásticas e corajosas.

Aquilo que Eduardo Suplicy pregou durante décadas e que parecia bizarro, terá de ser uma alternativa. A renda mínima para que nenhum ser humano morra de inanição. Simultaneamente, um treino consistente para que eles consigam subsistir e alcançar estágio diferenciado, mediante atuação autônoma.

Este Brasil devastado pela inclemência daqueles que deveriam proteger o ambiente precisa de urgente replantio do verde levado pela ignorância e pela ambição. Os indivíduos não precisam de especialíssima qualificação para semearem, para trabalharem em viveiros de mudas, para preencherem os espaços dizimados com novas espécies.

Há serviços que a robótica não conseguirá substituir o talento humano, como os de cabeleireiro e barbeiro, os pequenos reparos na construção civil, os encanadores, os eletricistas, os pintores. Se sobrarem idosos, haverá necessidade de cuidadores.

Não é impossível a criação de uma grande rede nacional que procure prover os necessitados de formação profissional de condições de exercício de atividades garantidoras de remuneração. Pensar no melhor aproveitamento dos resíduos sólidos que emporcalham as cidades e entopem as chamadas “bocas de lobo”, causando inundações. Cuidar com carinho das praças e espaços públicos, requalificar os parques, limpar e manter polidas as estátuas que ainda existem, desde que não sejam destruídas, por uma equivocada concepção de ressentimento.

É hora de se pensar numa economia de guerra. Contra a pandemia, mas contra a miséria. Contra a insensibilidade. Contra a cegueira da política profissional, que só pensa em auto-preservação, em eleições e reeleições.

Acabar com os fundos eleitoral e partidário. Acabar com gastos supérfluos. Acabar com propaganda de governo. A melhor propaganda é o governo fazer aquilo para o que foi preordenado. A publicidade governamental lembra a mulher que contrata uma gráfica para comprovar ao marido onde empregou a quantia que ele forneceu para a manutenção da casa. Quando se trabalha de verdade, o resultado é a melhor propaganda.

Mas para que se consiga motivar a sociedade egoísta no sentido de voltar seus olhos para a exclusão e para a invisibilidade dos semelhantes, é necessário o milagre da conversão da consciência.

Não faltam lições, seja no Cristianismo, seja no Judaísmo, no Islamismo e em outras confissões. E também não faltam mensagens dos agnósticos e ateus. É uma questão de humanidade. Para o Brasil, a dignidade humana é o princípio norteador de toda a vida pátria. Impositiva, tanto para governo como para a cidadania.

Mas vou lembrar aqui um dos Pais Fundadores da Igreja, São Basílio, que tem especial contundência ao tratar do tema. Ele diz: “O pão que tu reténs pertence aos que têm fome. O manto que guardas em tua arca pertence aos que estão despidos. Os calçados que apodrecem em tuas gavetas pertencem aos que estão descalços. É do indigente o dinheiro escondido em teus cofres”.

Quem não se lembra que o próprio Cristo afirmou que era mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus?

Para os crentes, ou que se proclamam – alto e bom som – serem cristãos, não é demais recordar que, “no dia do julgamento, Cristo será implacável para com aqueles que olharam a miséria distraidamente e que, como o fariseu, passaram pelo outro lado da rua, como se nada houvesse”.

Quem tem olhos para ver, veja. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Ninguém está excluído de repensar a iniquidade em que mergulhamos o País, cujas chagas abertas reclamam urgente e imprescindível cirurgia.

*José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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