Ministro mandou concluir ‘o mais rápido possível’ sindicância da Eletronuclear, diz PF

Ministro mandou concluir ‘o mais rápido possível’ sindicância da Eletronuclear, diz PF

Interceptações telefônicas da PF pegaram, em 9 de julho, conversa entre o almirante Othon Luiz, então presidente licenciado da Eletronuclear, e Leonam Guimarães, alto executivo da estatal, que faz menção a 'um ministro', não identificado pela Operação Radioatividade

Julia Affonso, Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Mateus Coutinho

08 Outubro 2015 | 05h00

Othon Luiz. Foto: Alaor Filho/AE

Othon Luiz. Foto: Alaor Filho/AE

Relatório de interceptação telefônica da Polícia Federal indica que ‘um ministro’ teria orientado o executivo do alto escalão da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães, a concluir ‘o mais rápido possível’ apuração interna da estatal sobre denúncia de propinas nas obras de Angra 3. A investigação envolveria o então presidente licenciado da Eletronuclear, almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, preso na Operação Radioatividade, em 28 de julho.

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O relatório, de 24 de julho, não identificou o ministro. Em um diálogo interceptado em 9 de julho, às 21h21, Leonam Guimarães diz ao almirante que um certo ‘Zé Costa’ “conversou com o ministro para interceder de alguma forma a favor de Othon”, enquanto estava licenciado da presidência da Eletronuclear.

“Aí eu..quando eu tava lá me preparando pra voltar, o Zé Costa me ligou…dizendo que…É que eu tô de presidente em exercício né”, afirma Leonam Guimarães. “(…) E é uma situação muito desagradável essa que tá acontecendo. Que agora tem o Palocci “tamém” né?”, referindo-se provavelmente a Ademar Palocci, irmão do ex-ministro-chefe da Casa Civil e da Fazenda Antônio Palocci (Governos Lula e Dilma Rousseff).

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Ademar Palocci é funcionário de carreira de Furnas. “Que eles iam..vão afastar o Palocci tamém né”, afirma Leonam. “E por causa do negócio lá. Aí ele falou assim: não, tive conversando com
o ministro. A gente tem que arrumar um jeito né de..pô..porque o Palocci ele é funcionário de Furnas, então ele pode ficar afastado e volta pra Furnas. Agora, o Othon pô..o Othon não…o Othon vive da aposentadoria dele da Marinha. Ele não tá ganhando pô!”

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Leonam continua falando. “Né. Porra não tá? Isso é uma sacanagem. Eu conversei…eu tinha que arrumar alguma coisa pra ele nesse meio tempo enquanto tá esperando. Isso é uma sacanagem com ele…eu fico constrangido com tudo isso que tá acontecendo..muito difícil…falou pra caralho né!”

“Aham”, responde Othon Luiz.

“Aí ele disse: não, eu falei com o ministro. Mas aí o ministro disse: isso…isso…isso é muito complicado! Vamos fazer o seguinte: vamos fazer essa investigação o mais rápido possível”, insiste Leonam.

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Diz o relatório da PF. “O alvo Othon Luiz Pinheiro da Silva mantém contatos com pessoas vinculadas à Eletronuclear, inclusive com o presidente em exercício desta empresa, o qual lhe passa informações de que alguém estaria intercedendo em Brasília e que algum ministro teria mandado que a investigação interna da empresa em relação a Othon terminasse “o mais rápido possível”, ao que Othon agradece, no que se pode concluir que era uma notícia aguardada pelo mesmo em relação a ter algum tipo de amparo político que interferisse na lisura da apuração interna da Eletronuclear.”

Segundo a PF, trata-se de investigação interna realizada na Eletrobrás, após o nome da estatal ser citado nas declarações do ex-presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, em delação premiada. Em depoimento à força-tarefa da Lava Jato, Avancini declarou que em agosto de 2014 houve ‘uma reunião na empresa UTC’, em São Paulo, em que ‘foi comentado que havia certos compromissos do pagamento de propinas ao PMDB no montante de 1% e a dirigentes da Eletronuclear’. Os repasses teriam sido acertados no âmbito das obras de Angra 3.

Avancini disse que um outro executivo ligado à Camargo Corrêa, que identificou como Luis Carlos Martins, lhe havia dito sobre ‘um acerto futuro do pagamento de propina a funcionários da Eletronuclear, sendo citada nominalmente a pessoa de Othon Luiz Pinheiro da Silva’.

Na sexta-feira, 2, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou ao juiz federal Sérgio Moro que enviasse à Corte máxima os autos da Radioatividade. A medida foi tomada sob alegação de que político com foro privilegiado – senador Edison Lobão (PMDB-MA) – havia sido citado como destinatário de valores ilícitos.

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