‘Minha ida para o Ministério da Justiça poderia criar dissabores para o governo’, diz Mariz

‘Minha ida para o Ministério da Justiça poderia criar dissabores para o governo’, diz Mariz

Advogado criminalista afirma que descarta definitivamente assumir a Pasta que controla a Polícia Federal e que não retira críticas ao que chama de 'excessos dos operadores da Lava Jato'

Fausto Macedo

13 de fevereiro de 2017 | 20h10

Antônio Claudio Mariz de Oliveira. Foto: KEINY ANDRADE/ESTADÃO

Antônio Claudio Mariz de Oliveira. Foto: KEINY ANDRADE/ESTADÃO

O advogado criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira disse nesta segunda-feira, 13, que definitivamente descarta assumir o cargo de ministro da Justiça, ainda que seja formalmente convidado pelo presidente Michel Temer, seu amigo. Ele disse estar ‘aliviado’ com a decisão que tomou em meio à onda de especulações sobre a sucessão de Alexandre de Moraes – indicado para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. “Minha ida para o Ministério poderia importar em alguns dissabores para o governo”, disse o advogado, em alusão ao fato de condenar ‘excessos dos operadores da Lava Jato’.

Estadão: O sr. descarta mesmo o Ministério da Justiça?

Advogado Antônio Claudio Mariz de Oliveira: O presidente Michel e eu chegamos à conclusão que a minha ida para o Ministério poderia importar em alguns dissabores para o governo neste momento em face do meu posicionamento em relação à Lava Jato. Posicionamento que já me levou a não ser nomeado em outra oportunidade. Perdura o meu posicionamento e perdura o temor de que a minha eventual nomeação venha a trazer algum problema para o governo.

Estadão: O sr. é contra a Lava Jato?

Mariz: Não sou contra a Lava Jato, ela traz benefícios que nenhuma outra movimentação de combate à corrupção trouxe ao País. Mas eu reitero que há excessos dos operadores da Lava Jato, em detrimento não só dos processos diretamente relacionados à Lava Jato, como das próprias garantias individuais em relação a todo e qualquer processo criminal. Está havendo sim algumas decisões que estão contrariando direitos individuais e a própria Constituição e alguns princípios que sempre regeram o Direito Penal.

Estadão: Como o sr. se sentiria no cargo de ministro sendo advogado de alvos da Lava Jato?

Mariz: De fato há um outro problema. As consequências da minha ida, para mim, pessoalmente. Eu tenho um escritório de advocacia criminal e tenho clientes que estão respondendo a processos direta ou indiretamente relacionados à Lava Jato. No momento em que eu assumisse este posto, este cargo, eu obviamente teria que me afastar de todos os casos. Eu estara impedido de advogar. Poderia até me afastar do escritório, tirando o meu nome do quadro de sócios, mas eu estaria colocando esses clientes em posição difícil.

Estadão: Por quê?

Mariz: Porque esses clientes voltariam a ser alvo e eu estaria colocando em risco a manutenção desses clientes no meu escritório. Eu tenho mais doze advogados aqui, inclusive um filho e uma filha, que poderiam ser profundamente prejudicados com a saída de alguns clientes importantes. Eu teria dificuldades em me explicar aos meus clientes, criando uma situação muito difícil para eles e para o meu escritório. Mesmo que o presidente tivesse feito o convite formal eu teria que declinar.

Estadão: O presidente o consultou sobre a possibilidade de ir para o Ministério?

Mariz: Ele conversou comigo. O convite estava implícito, mas conversamos sobre as consequências para o governo da minha ida. Chegamos à conclusão que o melhor era eu não ir para o Ministério, reforçada agora essa ideia por essas consequências que isso traria para o meu escritório.

Estadão: Para o governo seria constrangedor o sr. no Ministério da Justiça?

Mariz: Eu entendo que não, mas haveria sim uma repercussão grande contra o governo, não real, mas uma repercussão midiática muito grande; Basta que se leia os jornais, as revistas e as mídias eletrônicas nos últimos dias; Uma revista, neste fim de semana, colocou na capa uma matéria dizendo que há um complô por parte do governo para minimizar a importância da Lava Jato. A minha ida para o Ministério engrossaria esta ideia, que não é uma ideia real.

Estadão: O sr. se sente decepcionado?

Mariz: Ao contrário, eu tenho sentimento de muito orgulho, não só pela cogitação, pela notícia de que eu seria formalmente convidado, mas ainda mais pela repercussão do meu nome, as manifestações da classe jurídica. Foi emocionante, inclusive adversários meus me apoiaram. Disseram isso a amigos comuns. Isso tudo supera eventual sentimento de aborrecimento pelo fato de eu não ter ido.

Estadão: Amargurado?

Mariz: Estou aliviado, estou aliviado porque se o convite viesse formalmente e eu aceitasse eu absolutamente perderia o sossego. Imagine, depois de 71 anos de vida e 50 de profissão, respondendo a questionamentos sem fundamento, agressivos.

Estadão: Não há mais possibilidade de o sr. assumir a Justiça?

Mariz: Eu não quero, está fora essa possibilidade. Houve um consenso de que o melhor é eu não ir. O convite estava implícito. Ele (Michel Temer) queria, era o sentimento dele. Foi assim: na segunda feira (dia 6) me liga um assessor, me disse ‘você vai ser o ministro, o presidente já falou que o sr. será o ministro, só não será se ele tiver que ceder para o PMDB’. Ou seja, não tinha nada de Lava Jato. Bom, na quinta (9) à tarde ele (assessor) me liga novamente e diz ‘olha Mariz, aí tem um fogo amigo por causa da Lava Jato’. Na sexta o Michel me chama lá (na casa do presidente em São Paulo) e aí começamos a conversar sobre o problema da Lava Jato. Então, foi um consenso que eu não deveria ir.

Estadão: O sr. gostaria de ser ministro da Justiça?

Mariz: Eu gostaria de ir, mas não nessas circunstâncias. Se fosse agora eu entraria nessa vala comum, sabe: ‘Ah, o Mariz foi para o Ministério da Justiça para prejudicar a Lava Jato, ah o Mariz é advogado da Odebrecht, foi da Camargo Corrêa, é advogado do Ronaldo Cézar Coelho, do Roberto Teixeira (padrinho do Lula), da Galvão’. Enfim, tenho cinco ou seis clientes que estão envolvidos direta ou indiretamente na Lava Jato. Como é que eu faria com esses clientes? ‘Ah, o ministro Mariz vai proteger essas empresas’. Como é que eu poderia?

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