‘Mimimi’ para quem?

‘Mimimi’ para quem?

Deives Rezende Filho*

16 de maio de 2021 | 10h00

Deives Rezende Filho. FOTO: DIVULGAÇÃO

De uns anos para cá, o “mimimi” ficou famoso. Ele, normalmente, é usado quando a pessoa reclama de algo e quem ouve o lamento afirma que ele não se justifica. Enquanto o debate estava no campo esportivo, onde jogadores adversários se acusavam de simular uma falta, cair propositalmente para forçar um pênalti ou cartão amarelo, estava tudo bem. Mas a expressão deixou de ser inofensiva, quando passou a ser argumento para justificar racismo, machismo, homofobia entre outros tipos de preconceitos que, como sabemos, podem até matar.

Pois é, não é só “mimimi”, é algo grave de se dizer. E o que fazer quando esse termo é usado no ambiente de trabalho?

O grupo Kantar mostrou, em pesquisa, que 80% das pessoas já viram cenas de discriminação no trabalho, mas só uma em cada três relatou à empresa. Eu já presenciei reuniões com membros de alto escalão de companhias importantes, nas quais a expressão “mimimi” foi usada. E é por isso que posso afirmar que para acabar com esse tipo de situação, precisamos institucionalizar a inclusão.

Eu bato nesta tecla, porque mais do que diversas, as organizações têm que ser inclusivas. Elas devem acolher a diversidade e não tratá-la como uma meta a ser batida ou um bom número para constar no relatório anual. Uma empresa moderna tem diversidade e inclusão na sua estratégia de negócio e não só de marketing.

Um estudo do Instituto Ethos e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) mostra que negros e negras ocupam apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência das 500 maiores empresas que operam no Brasil,  sendo que de acordo com o IBGE, 52,9% da população brasileira é composta por pretos e pardos. Como fazer, então, para que um estagiário ou analista negro, recém chegados na organização se sintam pertencentes? Eles não se reconhecem entre seus pares!

Entre as reclamações que já escutei nos meus anos de carreira, mediando conflitos entre pessoas em meus ambientes de trabalho, estão as de colaboradores negros e negras, que não recebiam “bom dia” ou pequenas gentilezas estendidas a outros colegas. É como se eles não existissem. É assim que muitas pessoas se sentem em seus ambientes de trabalho.

Seis em cada dez negros se sentem prejudicados em processos seletivos para empresas, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, que também mostra que a diferença salarial entre pretos e brancos, quando isoladas todas as outras variáveis, como a formação profissional, restando somente a cor da pele como definição para essa disparidade, é de 31% – um número alarmante.

Na pandemia a situação piorou ainda mais para a população negra. De acordo com o Instituto Data Zumbi, desde o ano passado, o desemprego afetou 21% da população preta, parda e jovem e 13% do restante dos cidadãos.

Eu poderia rechear este artigo só com dados das disparidades existentes – entre homens e mulheres, negros e brancos, héteros e LGBTQI+, jovens e maduros – mas a ideia aqui é outra. Racismo, homofobia e discriminação de gênero vão muito além de falta de informação, são preconceitos sérios e podem ser considerados crime.

Claro, ainda há um longo e tortuoso caminho a ser percorrido, mas, definitivamente, não é sem empatia que resolveremos esta “parada”. Então, vamos juntos entoar o mantra: “não é só mimimi”.

*Deives Rezende Filho é fundador da Condurú consultoria. Coach e mediador organizacional pelo Instituto EcoSocial, Professional Certified Coach (PCC), Mentor Coach (International Coach Federation), especialista em temas de governança ética. Ex-presidente do Comitê de Ética ICF-Brasil e palestrante em ética empresarial, conflitos no ambiente de trabalho, protagonismo do negro e inclusão racial

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