‘Meu sentimento é que ele vai escolher alguém dentro da lista’, disse homem da mala sobre PGR

Lobista da J&F gravou conversa com Rocha Loures, ex-assessor da Presidência, em que eles comentam medidas a serem incluídas na reforma política a nomeação de substituto de Rodrigo Janot

Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Julia Affonso

28 de junho de 2017 | 20h13

Michel Temer e Rodrigo Rocha Loures. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Em conversa gravada pelo lobista do Grupo J&F para o Congresso Ricardo Saud e o homem da mala preta, o ex-assessor da Presidência Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) afirmou que um grupo de parlamentares iria tentar “encaixar” temas na reforma política que podem “aliviar o momento” e que a sucessão do procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, seria o próximo passo do governo em relação às investigações da Lava Jato.

“Nós vamos tentar votar, um grupo pequeno de parlamentar, vai tentar dentro da reforma política, encaixar alguns temas que podem aliviar esse momento. E tem a sucessão do Janot, na sucessão de Janot é o presidente Temer que vai escolher o sucessor dele”, afirma Loures, à partir dos 35 minutos do áudio.

O presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, José Robalinho Cavalcanti, entregou a lista tríplice com os nomes mais votados para a cadeira de procurador-geral da República ao presidente Temer nesta quarta-feira, 28

Os procuradores, em todo País, elegeram na terça-feira, 27, os subprocuradores-gerais da República Nicolao Dino, Raquel Dodge e Mario Bonsaglia, pela ordem. Nicolao teve 621 votos, Raquel, 587 e Mário, 564.

No início da noite, o Planalto anunciou que Raquel Dogde foi a escolhida.

Grampeado. O homem da mala preta estava sendo gravado por Saud. Os dois falavam sobre os impactos e desdobramentos da mega delação premiada da Odebrecht.

Saud adverte que ele o presidente não deveria indicar ninguém ligado ao atual procurador-geral Rodrigo Janot.

Saud diz que ele não vai tender a ninguém. “De fato Ricardo, o presidente vai aguardar a escolha feita pelos próprios procuradores, vai aparecer uma lista tríplice, e aí ele vai escolher…”.

“Rodrigo, e só pode nomear dentro da lista?”, questiona o delator.

“Não ele pode nomear fora da lista, mas o meu sentimento é que ele vai escolher alguém dentro da lista”, respondo o ex-braço-direito de Temer.

Saud quis saber se ele “não pode igual ele fez com o ministro da Justiça?”.

“Não, poder, ele pode. Ele pode escolher quem ele quiser dentre… A Constituição diz que é ele que nomeia o procurador-geral da República, ponto. Agora, naturalmente, ele escolhe a carreira.”

+ Lista tríplice dos procuradores nas mãos de Temer

O lobista da J&F afirma que não houve desgaste nenhum com a indicação do “careca”, em referência ao ex-ministro da Justiça Alexandre de Moraes, atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

No diálogo, Saud diz que continuava mantendo os pagamentos para o “passarinho”, referência ao operador de propinas do PMDB Lucio Bolonha Funaro, e para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – preso pela Lava Jato, desde outubro de 2016.

Cabe ao presidente Michel Temer (PMDB) indicar o chefe do Ministério Público Federal. O presidente não é obrigado a escolher nenhum nome da lista, conforme prevê a Constituição, e não tem prazo para tomar a decisão.

Denunciado. Loures afirma a Saud que considerava a situação do ministro da Casa Civil, Alexandre Padilha, complicada e lembrou o que disse Temer no início do ano sobre como procederia com membros do governo denunciados.

“A gente tem que aguardar aquele tempo que falei, quanto tempo demora para o Ministério Público apresentar a denúncia. O que o presidente falou foi ‘aquele que for denunciado pelo Ministério Público será afastado do governo, se essa denúncia for aceita pela Supremo Tribunal Federal, está demitido’. Acho que ele vai afastar o Padilha.” (ouça aos 1 hora e 26min)

Nessa segunda-feira, 26, a PGR denunciou formalmente o presidente Temer para o STF.

A escolha do sucessor de Janot se dá em um cenário de tensão entre o Ministério Público Federal e o Poder Executivo por conta dos desdobramentos da Operação Lava Jato e da primeira denúncia – de possíveis três – contra Temer oferecida na segunda-feira, 26.

O primeiro colocado da lista tríplice, Nicolao Dino, tem apoio do atual procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que acaba de oferecer denúncia criminal contra Temer por corrupção passiva no caso JBS. O procurador e o presidente travam um duelo histórico.

Aliados de Temer têm sugerido ao presidente que ignore a lista tríplice dos procuradores, optando por um nome de sua estrita confiança para comandar a instituição nos próximos dois anos.

Reformas. Os dois falam sobre os estragos da delação da Odebrecht. “Acho que um terço do Senado vai ser atingido e todas as lideranças.” Ele afirma acreditar que as reformas serão aprovadas.

“Do ponto de vista quantitativo, nós vamos ter voto para aprovar as reformas. Aprovando as reformas, a gente destrava a economia, abre o mercado de capitais, pois há um apetito do mundo pelo País. E isso irriga, traz energia para a nossa economia, e alivia um pouco essa dor, esse desanimo.”

Loures afirma no audio como foi sua missão de reassumir cargo na Câmara dos Deputados. E diz que a prioridade do governo é aprovar a reforma da Pervidência.

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