‘Meu querido Vaccarezza’

‘Meu querido Vaccarezza’

Intensa troca mensagens de celular recuperadas pela Polícia Federal revela poder e influência do ex-líder dos Governos Lula e Dilma em negócios milionários da Petrobrás e ligação com lobista Jorge Luz, operador de propinas do PMDB

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

18 Agosto 2017 | 11h29

Cândido Vaccarezza. FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO

A Operação Lava Jato afirma que o ex-líder dos Governos Lula e Dilma na Câmara, ex-deputado Cândido Vaccarezza (PT/SP), detinha forte influência e poder sobre negócios milionários da Petrobrás, estatal que ele frequentava acompanhado do lobista Jorge Luz, operador de propinas do PMDB. Mensagens de celular recuperadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria da República revelam o trânsito de Vaccarezza na petrolífera.

“Meu querido Vaccarezza, (…) O importante é que seu contato consiga saber qual o melhor preço de venda da tonelada de tolueno para contratos de longo prazo como será o do Benzoato”, escreveu Liliana dos Santos Krawczuk, ligada ao PT, ao então parlamentar.

Ela seguiu. “O preço da matéria prima é fundamental para viabilização do projeto e da fábrica, como já te disse. Outro detalhe, que ainda precisa ser discutido, é como a Petrobras ou a BR Distribuidora poderão fornecer uma carta/documento que garanta as 1.000 toneladas para quando a fábrica estiver pronta (o que deve levar cerca de 12 a 18 meses).”

Vaccarezza foi preso nesta sexta-feira, 18, em São Paulo, por ordem do juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato. “Há fundada suspeita de que Cândido Elpídio de Souza Vaccarezza, durante seus mandatos de deputado federal, entre 01/02/2007 a 31/01/2015, foi beneficiário, em mais de um episódio, do pagamento de vantagem indevida decorrente de acertos de corrupção em contratos da Petrobrás. Um destes episódios seria a contratação da empresa estrangeira Sargeant Marine para fornecimento de asfalto para a Petrobrás”, assinalou o magistrado.

Vaccarezza pegou propina de US$ 500 mil, diz Lava Jato

A investigação reproduz mensagens destinadas e enviadas por Vaccarezza relacionadas a cargos de gerência na Petrobrás.

Chamou a atenção dos investigadores pleito de um empregado da estatal ao petista para que os cargos fossem ocupados por ‘pessoas dispostas a defender o Governo e o Partido dos Trabalhadores e para que fossem afastadas pessoas a eles não simpatizantes’. Na prática, solicitação para a ocupação de cargos por critérios político partidários.

Há diversas mensagens trocadas entre Vaccarezza, Liliana e outros integrantes do grupo que agia na Petrobrás. Um deles, identificado Peter Issar Alves. Os investigadores suspeitam que o grupo formado por Peter e ainda Milton Kaeriyam, Valmir Cavalcanti, Luciana Hadad e Walter Silveira pretendiam constituir uma empresa de nome Quimbra – Indústria Comercial e Distribuidora de Produtos Químicos ‘e obter junto à Petrobrás um contrato de longo prazo para fornecimento de tolueno’.

“Como lhe disse, estou muito confiante que o Vaccarezza nos dará um retorno que nos dará um rumo certo nessa negociação.” (trecho de mensagem de Liliana ao grupo).

“Vamos fazer a coisa como o Vaccarezza sugeriu, ou seja, o fato dele estar conversando com a BR Distribuidora, não impede que vocês participem desta reunião com a Petrobrás, que é a fornecedora do Tolueno.” (trecho de mensagem de Liliana ao grupo).

“Querida e doce Liliana Vamos conversar melhor pessoalmente. Acho mais adequado. Beijinhos. Vaccarezza”

“Lembrete: a reunião com a Petrobrás para definição de preços do tolueno será dia 09/10 às 16h00 em Cubatão. Manterei você informado, ok?” (trecho de mensagem de Liliana a Vaccarezza)

“Para que isso não aconteça mais, é necessário que a Quimbra esteja conduzindo os contatos e as negociações com a Petrobrás daqui em diante, e que o Vaccarezza atue apenas como facilitador com a Petrobrás. Na figura de facilitador, o Vaccarezza não deve conduzir as negociações e muito menos tratar de estratégias, oferta de sociedade, etc… – isso é atribuição e assunto da Quimbra. Portanto, vou pedir ao Vaccarezza que me introduza às pessoas certas da Petrobrás, pessoas de decisão. Se ele não puder fazer isso, tentarei por outros caminhos.” (trecho de mensagem de Peter ao grupo).

“A Liliana não conhece ninguém na Petrobrás no Rio que possa nos ajudar. Ela tem uma penetração no PT, que é governo e os deputados e senadores do PT podem nos ajudar nesse processo, o que já está sendo feito com o Vaccarezza, Fausto Figueira (Dep Estadual) e o Vanderley (secretario do meio ambiente de Cubatão” (trecho de mensagem de Peter ao grupo, fls. 263-264 da representação)

“Vc conseguiu falar com seu amigo da BR Distribuidora? Precisamos resolver este assunto, que é de grande importância.” (trecho de mensagem de Liliana a Vaccarezza).

“Caro Vaccarezza, (…) Como comentei, teremos uma reunião com a Petrobrás pela manhã do dia 18/12, sexta-feira, às 10hs em São Paulo e seria muito importante que pudesse conversar com eles antes de nossa reunião em São Paulo na sexta, no sentido de conseguirmos uma condição de preço que viabilize economicamente o nosso projeto. Qualquer dúvida, por favor me avise.” (trecho de mensagem de Peter a Vaccarezza, fl. 273 da representação)

Ao mandar prender Vaccarezza, o juiz Moro abordou os capítulos da corrupção na Petrobrás. “Todos esses casos confirmam o padrão adiantado de que os acertos de propinas em contratos da Petrobrás não serviam somente ao enriquecimento ilícito dos agentes da Petrobrás, mas também ao enriquecimento ilícito de agentes políticos que davam sustentação política aos agentes da Petrobrás e igualmente ao financiamento criminoso de partidos políticos. O presente caso envolve uma fração desses crimes. Há fundada suspeita de que Cândido Elpídio de Souza Vaccarezza, durante seus mandatos de deputado federal, entre 01/02/2007 a 31/01/2015, foi beneficiário, em mais de um episódio, do pagamento de vantagem indevida decorrente de acertos de corrupção em contratos da Petrobrás. Um destes episódios seria a contratação da empresa estrangeira Sargeant Marine para fornecimento de asfalto para a Petrobras.”

O início da investigação foi a delação do engenheiro Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás. Ele afirmou que, em 2008, o lobista do PMDB Jorge Luz lhe apresentou a empresa americana Sargeant Marine.

Posteriormente, a Sargeant Marine foi contratada pela Petrobrás para fornecimento de asfalto, sendo que esta contratação teria rendido uma ‘comissão’ a Paulo Roberto Costa que teria sido paga pela companhia americana. Em um primeiro momento, o então diretor de Abastecimento reportou-se a US$ 800 mil de comissão, depois retificou-se, afirmando tratar-se de US$ 192.800.

“Segundo Paulo Roberto Costa, Jorge Antônio da Silva Luz também recebeu comissão e teria pago parte dela, no montante de R$ 400 mil ao então deputado federal Cândido Elpídio de Souza Vaccarezza, por motivos desconhecidos pelo diretor.

A PF e a Procuradoria resgataram trocas de mensagens eletrônicas em julho de 2009 e novembro de 2012 entre Jorge Luz e Vaccarezza. Também recuperaram registros de visitas na sede da Petrobrás, com apontamento de que Jorge Luz e Vaccarezza estiveram juntos em visita na mesma data e horário, em 19 de abril de 2010, ambos com destino ao 23.º andar. E registro de visita na sede da Petrobrás por Vaccarezza, especificamente a Paulo Roberto Costa em 19 de julho de 2010.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO MARCELLUS FERREIRA PINTO, QUE DEFENDE CÂNDIDO VACCAREZZA

“A defesa de Cândido Vaccarezza, por meio do advogado Marcellus Ferreira Pinto, esclarece, em nota, que: Cândido Vaccarezza nunca intermediou qualquer tipo de negociação entre empresas privadas e a Petrobrás. A prisão foi decretada com base em delações contraditórias, algumas já retificadas pelos próprios delatores. A busca e apreensão excedeu os limites da decisão judicial, confiscando valores declarados no imposto de renda e objetos pertencentes a terceiros sem vínculo com a investigação. A defesa se manifestará nos autos e espera que a prisão seja revogada e as demais ilegalidades corrigidas!”

COM A PALAVRA, O PT

“Vaccarezza foi militante e parlamentar do PT, saiu do Partido por divergências políticas, um direito de qualquer pessoa.
O partido não tem informações sobre esse processo. Esperamos que ele tenha oportunidade de se defender e esclarecer as acusações”.

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