Meu exército, meu general

Meu exército, meu general

Rodrigo Augusto Prando e Luiz Fernando Prudente do Amaral*

08 de junho de 2021 | 15h10

Rodrigo Augusto Prando e Luiz Fernando Prudente do Amaral. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Conforme noticiado, em recente decisão, o Comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira,  optou por não punir o General Eduardo Pazuello, ex-ministro da saúde, por sua participação em ato político promovido pelo presidente Bolsonaro. Consta que outros generais ficaram desgostosos com a decisão, visto que é vedado aos militares da ativa, por conta do regimento disciplinar do Exército, a participação em atos de natureza política.

No referido ato, tanto Bolsonaro quanto Pazuello, estavam sem máscaras, contrariando protocolos sanitários. Em defesa de Pazuello foi argumentado que não houve nenhuma dimensão política no episódio, até porque o presidente não tem filiação partidária. Na verdade, segundo tal versão, o que se deu foi um simples passeio de motocicleta.

Obviamente, tal argumento – que foi acatado – integra mais uma narrativa fantasiosa. Sim, muitos dentre os que se aglomeraram sem máscaras eram motociclistas. O que importa para uma correta avaliação, contudo, é que todos se uniram, não por paixão pela vida em duas rodas, mas sim por Bolsonaro. Este, todos sabemos e cada vez mais constatamos, está em campanha pela reeleição desde o primeiro dia do mandato presidencial.

Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, explicou, acerca das relações afetuosas no Brasil, que temos o costume de usar o sufixo “inho” para suavizar as palavras e para que se tornem mais próximas do coração. Fazer uma prova pode ser difícil, mas uma provinha é sempre mais tranquila; tomar cerveja é uma coisa, uma cervejinha, outra bem mais agradável; futebol é esporte, futebolzinho é pura diversão com os amigos; e por aí vai. E, no bom uso do “inho”, Bolsonaro, sempre muito sorridente entre seus apoiadores, apontou para o General Pazuello e decidiu chamá-lo de “meu gordinho”. A admiração de Pazuello pelo mandatário é grande. O nível de obediência é militar. Afinal, segundo o general, nessa relação “um manda e o outro obedece”. Sendo assim, ser o “gordinho” do presidente deve honrar o general em questão. Quiçá nem a mais elevada distinção honorífica – a Ordem do Mérito Militar – seria comparável a ser o “gordinho” do presidente, ao menos para o ex-ministro especialista em logística que foi nomeado para comandar o Ministério da Saúde e deu provas diuturnas de irrestrita submissão ao ocupante do Palácio do Planalto e pouca competência nos temas atinentes à saúde pública. Poucas vezes um ministro se sujeitou a tantas situações vexatórias em nome da lealdade ao presidente da República. Talvez por isso o general seja o “gordinho” de Bolsonaro, uma vez que, ao contrário de Mandetta e Teich, seu compromisso não é com a ciência e com a saúde dos brasileiros, mas sim com o Capitão e com tudo aquilo que por ele for determinado, ainda que contrário à ciência e à saúde da Nação.

Há muito que, sociológica e politicamente, Bolsonaro mistura assuntos de Estado com temas afeitos à família, na já conhecida indistinção entre os espaços público e privado que está arraigada na cultura política brasileira e, também, objeto de análise do citado Holanda. Também nisso o Capitão é o que há de mais velho na política nacional. Ele não quer apenas um exército para chamar de seu, ele quer o Estado todo com suas iniciais gravadas. A lógica é pueril: se ele manda, tudo deve ser como ele quer.

Poucas vezes acompanhamos uma gestão tão pífia nos temas diretamente ligados a um Ministério. Difícil imaginar que alguém com experiência em gestão pública e mínimo estudo acerca dos temas ligados à Pasta para a qual foi nomeado consiga ter desempenho pior. Nesse aspecto, Pazuello parece ganhar de qualquer outro que tenha ocupado o mesmo cargo.

Segundo alguns jornalistas que cobrem a política e o cotidiano de Brasília, o Exército Brasileiro curvou-se ao presidente e isto marcará, de forma indelével, sua história. Qual é a sinalização simbólica dada aos demais militares, de patente inferior? Numa sociedade politicamente polarizada, o presidencialismo de confrontação que caracteriza o bolsonarismo levou as relações sociais e políticas ao extremo. Esgarçou o tecido social e as instituições democráticas. Como será a eleição vindoura, em 2022? Como reagirá o presidente, seus apoiadores e os militares no bojo do poder se, democraticamente, Bolsonaro não for reeleito? Será possível debater com alguém que porta um fuzil, que exerce, como assevera Weber, o monopólio legítimo da violência, representando o Estado?

Já surgem notícias, no âmbito das polícias militares de vários Estados brasileiros, de preocupante crise de disciplina e comando, segundo a qual a tropa parece não reconhecer a autoridade dos governadores. As eleições de 2022 serão, por certo, a maior prova para as instituições republicanas e para a democracia brasileira.

Será que após a ausência de punição a Pazuello o “presidente-candidato” já está pensando no sufixo “inho” para usá-lo num palanque ao se referir ao “meu exercitozinho”? Ninguém nessa história estava desavisado. Todos, especialmente o governo e os militares, sabiam onde estavam suas trincheiras. Escolheram embaralhar as coisas e aqueles que sempre tentaram esclarecê-las, tal como o general e ex-ministro Santos Cruz, foram e seguem sendo atacados pelos apoiadores do mandatário da vez.

Preocupa imaginar o que esses constantes tropeços podem gerar à democracia e à imagem das Forças Armadas. Estas não podem ser mergulhadas nesse caldeirão, cujos ingredientes aproximam-se, perigosamente, do populismo demagógico. No mais, as questões de Estado e de Governo reclamam razão, ponderação e decoro; decoro que, na oblíqua visão dessa “nova velha política”, deve ser comportamento de maricas.

*Rodrigo Augusto Prando, professor universitário. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia. Analista Efetivo do Canal Ligando os Pontos

*Luiz Fernando Prudente do Amaral, professor universitário. Jurista e Doutor em Direito. Analista Efetivo do Canal Ligando os Pontos

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