‘Meu anjo protetor Gi’

‘Meu anjo protetor Gi’

Em diário de prisão, Paulo Vieira de Souza citou que estaria orando ao requisitar habeas corpus ao ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes; procuradores vêem 'referência' ao magistrado, já aliados do ex-diretor da Dersa afirmam que ele se refere a um ente querido que morreu

Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Julia Affonso

27 de fevereiro de 2019 | 20h20

A Operação Lava Jato aprendeu na casa do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, acusado de ser o operador de propinas do PSDB, um diário do período em que esteve preso pela primeira vez, em abril de 2018, em que registrou os pedidos ao “Anjo Protetor Gi”, em trechos em que cita o habeas corpus requisitado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Para a força-tarefa, a frase se refere ao ministro. Aliados do ex-diretor da Dersa afirmam, no entanto, que seria um ente querido que teria morrido há anos.

Os registros são do dia 10 de maio e 11 de maio, dias que antecederam a ordem de Gilmar Mendes para soltar o operador do PSDB pela primeira vez. Ele havia sido detido no dia 6 de abril por ordem da juíza federal Maria Isabel do Prado, da 5.ª Vara Federal Criminal de São Paulo. No dia 30 daquele mês, ele seria preso novamente pela Lava Jato de São Paulo – e solto novamente por ordem de Gilmar.

Na data de 10 de maio, o diário de Paulo Preto registra: “Fui informado sobre HC Limiar ao Ministro Gilmar Mendes e fui à missa pedir ajuda se possível do meu Anjo Protetor Gi, para relaxamento da minha prisão, por motivos da injustiça impetrados pelo MPF/SP e Juíza Maria Isabel, foi minha 1ª Comunhão na Igreja da Penitenciária”.

Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, que prenderam Paulo Preto pela terceira vez no dia 19, alvo da fase 60 que apura ligação do ex-diretor da Dersa com lavagem de dinheiro para o ex-ministro e ex-senador do PSDB Aloysio Nunes Ferreira, querem saber mais detalhes das anotações. “No trecho acima, observa-se a referência ao habeas corpus então impetrado pela defesa de Paulo Vieira de Souza junto ao eminente Ministro Gilmar Mendes, e a busca de ajuda do ‘Anjo Protetor Gi'”, escreve o MPF.

Documento

Os procuradores anexaram ao processo petição nesta terça-feira, 26, em que pede que Souza “preste esclarecimentos sobre a menção” a fatos e pessoas investigados na Ad Infinitum, como sobre o operador financeiro Rodrigo Tacla Duran, “bem como para que explique as conversas cifradas acima colacionadas”.

Outro trecho do diário do cárcere do operador do PSDB é do dia 11 de abril, quando Gilmar Mendes concedeu liberdade pela primeira vez a ele.

Era sexta-feira, e Paulo Preta registra ter recebido duas cartas “sentidas” das filhas. “Porém só fui ler após tomar banho e receber a notícia (após minha comunhão na igreja da Penitenciária de Tremembé II) e pedido para Gi interferir com Deus a respeito de acalentar a minha Mini Family, Big Family e Amigos”.

“No trecho acima, observa-se a referência à possibilidade de Paulo Vieira de Souza ‘fazer uma delação’, e ao pedido ‘para Gi interferir com Deus a respeito de acalentar a minha Mini Family, Big Family e Amigos'”, anota o MPF.

 

“O criador atendeu o meu pedido e logo as 19h00 o ministro Gilmar Mende aceitou o HC de liminar, por uma ameaça falsificada pelo MPF/SP e Juíza Maria Isabel do Prado”, registra o suposto diário.

O documento foi apreendido no endereço de Paulo Preto em São Paulo e anexado aos autos da Lava Jato nesta terça-feira.

Vieira de Souza já é réu de duas ações penais da Lava Jato em São Paulo. No processo que trata de desvios de R$ 7,7 milhões em obras de reassentamento do Rodoanel, Aloysio Nunes foi arrolado como testemunha de defesa de Tatiana, filha de Paulo, também ré na ação. No dia 13 de fevereiro, Gilmar Mendes atendeu um pedido da defesa de Paulo Vieira de Souza e adiou o fim deste processo.

O Ministério Público Federal afirma que o operador disponibilizou, a partir do segundo semestre de 2010, a fortuna de R$ 100 milhões em espécie ao operador financeiro Adir Assad, no Brasil. Assad entregou os valores ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, aos cuidados do doleiro Álvaro José Novis – que fazia pagamentos de propinas, a mando da empresa, para vários agentes públicos e políticos, inclusive da Petrobrás.

Em contrapartida, relata a investigação, a Odebrecht repassou valores, por meio de contas em nome de offshores ligadas ao Setor de Operações Estruturadas da empreiteira, ao operador Rodrigo Tacla Duran.

A Procuradoria da República afirmou ainda que o ex-diretor da Dersa manteve R$ 131 milhões em quatro contas no banco Bordier & CIE, de Genebra, em nome da offshore panamenha Groupe Nantes SA, da qual o operador é beneficiário econômico e controlador. As contas foram abertas em 2007 e mantidas até 2017.

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