Metaverso: a próxima metamorfose que viveremos

Metaverso: a próxima metamorfose que viveremos

Luis Fernando Prado e Pedro Sanches*

11 de novembro de 2021 | 10h30

Pedro Nachbar Sanches e Luis Fernando Prado. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Aos entusiastas de tecnologia, tem sido difícil esconder a empolgação após a hoje extinta Facebook Inc. anunciar a mudança de seu nome para Meta. Em uma jogada de all-in, a gigante tech aposta todas as fichas em algo que finalmente aproxima o mundo real daquele retratado nos filmes de ficção científica: o metaverso.

Para quem não conhece, metaverso – que, de tão complexo, ainda não conta com uma definição clara e unânime – é um ambiente conectado que, por meio de uma combinação de tecnologias, possibilita a edificação de um mundo realmente virtual, o qual hoje, por meio de nossos celulares e computadores, ainda não conseguimos acessar. No metaverso teremos o nosso avatar, que será a nossa representação nesse mundo virtual e, por meio dele, viveremos a nossa segunda vida, com nível de interatividade e sensações que, fora dos cinemas, a sociedade até então nunca experimentou.  Acha exagero? Pois Mark Zuckerberg (agora CEO da Meta) e muitas outras pessoas – inclusive estes autores – acreditam que acessar o metaverso, em um futuro relativamente próximo, de aproximadamente 10 a 15 anos, fará parte da nossa vida diária, assim como hoje usamos o WhatsApp.

É verdade que essa história de viver uma realidade paralela não é nova. Vale lembrar que o jogo Second Life, lançado em 2003, já possibilitava (com restrições devido à tecnologia disponível à época) interação através de universo digital, permitindo que avatares pudessem trabalhar, estudar ou até frequentar festas. Além do Second Life, talvez você conheça o simulador The Sims, que, na virada do século, de forma menos complexa, já nos instigava a ter uma outra vida, virtual. Com o metaverso, a grande diferença é que não mais simularemos, mas, de fato, viveremos uma vida digital com toda a intensidade que a tecnologia nos permitirá, em todas as esferas possíveis (pessoais e profissionais). Não será mais o nosso bonequinho cantando, conversando, brincando, trabalhando – mas sim nós mesmos.

Dentre as novidades anunciadas por variadas empresas que estão investindo no metaverso, estão as tecnologias acessórias, como óculos que funcionam como portal de entrada para o novo mundo e wearables (dispositivos vestíveis), que permitem sensação de toque. Além disso, não são poucas as organizações que estão fazendo com que o mercado de bens digitais – inclusive de luxo – esteja cada dia mais aquecido, o que é possível graças às emissões de tokens não fungíveis (NFTs), que geram escassez e unicidade a recursos virtuais. No metaverso, será possível que o avatar reflita o mesmo estilo de vida e classe social que seu “dono” possui no mundo real. É tanta novidade que, neste quarto parágrafo, o programa de edição que estamos utilizando para escrever este texto já bugou diante da quantidade de palavras ainda não reconhecidas pela ortografia.

Em resumo: hoje, nós criamos um nome de usuário e senha e, no limite, podemos visualizar, escutar ou produzir algum conteúdo online. Quando o metaverso estiver amplamente difundido na sociedade, nós seremos capazes de sentir o que está no ambiente online. E isso, literalmente, muda completamente o jogo, porque a linha que diferencia o offline do online será cada vez mais tênue.

Essa verdadeira revolução no modo como interagimos online, para além de imensuráveis impactos positivos, trará também desafios éticos e jurídicos. Para nos restringirmos aqui a alguns desafios iniciais da esfera jurídica, vale destacar que, do ponto de vista de privacidade, por exemplo, é curioso pensar na maximização da coleta e da análise de dados que a massificação do metaverso viabilizará. Se por muito tempo as grandes vilãs da privacidade foram as câmeras (bem como outros dispositivos que permitiam a coleta de dados), imagine-se viver em um mundo onde o offline não existe e absolutamente tudo – inclusive a direção do nosso olhar – acontece num ambiente com alto potencial de monitoramento, o qual torna a tecnologia das câmeras completamente obsoletas.

Além disso, com as transações de ativos 100% digitais acontecendo em ambientes 100% virtuais e totalmente transfronteiriços, parece previsível que as moedas tradicionais, pensadas para um mundo no qual o conceito de jurisdição territorial ainda fazia sentido, cairão em desuso. Será a hora e a vez das cripto moedas, cuja popularização passará por uma escalada sem precedentes. Tudo isso sem nos alongarmos nas demais repercussões jurídicas, econômicas e sociais que o surgimento desse novo mundo trará, até porque ainda é impossível dimensioná-las.

O que, sim, conseguimos desde já vislumbrar, como propunham os filmes de ficção científica mais triviais do século passado, é que finalmente reunimos os elementos necessários para passar uma borracha na linha que separa o físico do digital, a ponto de, nas próximas décadas, a realidade virtual se tornar apenas realidade. A vida, mais uma vez, imitou a arte. A Meta e o metaverso são fatores que provocarão nossa próxima grande metamorfose.

*Luis Fernando Prado, sócio do escritório Prado Vidigal Advogados, especializado em direito digital e proteção de dados

*Pedro Sanches, advogado do escritório Prado Vidigal Advogados, especializado em direito digital e proteção de dados

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