Mérito do esquecimento

Mérito do esquecimento

Angel Machado*

29 de dezembro de 2020 | 11h25

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Esquecer é habitualmente um alívio, mas, não roube a memória alheia, porque deixamos de ser uma cultura experimental em 2020. A propósito, este ano não haverá uma retrospectiva honrosa, e a estreia de 2021 é, também, o início de um novo olhar sobre a humanidade.

Tudo o que a pandemia desencadeou deixará vestígios para sempre na vida das pessoas – para o bem e para o mal -, afinal, falo da espécie humana, e não me cabe subsidiar os sonhos dos incrédulos para uma possível esperança no próximo ano. É incontestável a capacidade de algumas pessoas, elas veem o lado ruim dos acontecimentos bons, mas, a respeito disso não há jacarés em cima do muro.

Essa liberdade caucasiana de ir e vir, e ver as coisas como elas não são, continuará em 2021 e a demanda aumentará com o populismo. O Brasil tem raízes profundas em Cultura e diversidade. Em 2020 descobrimos que alguns brasileiros não merecem a nossa pátria. No nosso país a Justiça é cega e o lema de “cada um por si” é, infelizmente, um hino institucional.

O otimismo não se traduzirá em sorrisos ou palavrões conjugados com ódio e sarcasmo. A vida prosseguirá com as mesmas lutas e antigas desigualdades; e os lados da moeda dançarão conforme o interesse individual de quem ainda se mantém no poder.

O Brasil é o lugar-comum para as teorias mágicas, enquanto há um abismo que nos engole. Se quisermos ser otimismas lemos o horóscopo. Estamos habituados às conspirações e à oposição letárgica, mas, não ignoramos o fato que, talvez, ela esteja selecionando os pares para compartilhar ideias que a mantenha respirável num futuro de alternância política. Falta-nos paciência? Talvez.

O desenho histórico da humanidade registra que os homens foram feitos para a guerra e a insatisfação. Estamos a dois mil e vinte anos d.C. e o processo civilizatório continua estagnado com burocratas que aprisionam a liberdade individual e coletiva.

Não quero roubar a beleza a quem vê a vida com olhos compassivos. A ideia é simples: não desative a memória, nem obstrua a ordem natural do que é essencial – a vacina -, aliás, é a partir dela que vislumbramos a esperança e os benefícios para todos nós.

O pior não ficará em 2020, a realidade manter-se-á depois da virada. A falsa percepção induzida pela ignorância deixará, ainda, mais longe os arautos anticiência. Não se pode adiar a vacina para o outro século, o ódio e a desinformação não premiarão a vertigem e o egoísmo e o “jeitinho brasileiro”. É preciso um compromisso que mobilize a identidade nacional e a Justiça capazes de credibilizarem as instituições e potenciarem a mudança política em 2022. Termino com palavras de João Guimarães Rosa: o que tem de ser tem muita força.

*Angel Machado é jornalista e escritora

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