Mercadante, Lula e os aloprados

Mercadante, Lula e os aloprados

Elizabeth Lopes

15 de março de 2016 | 14h00

A gravação que revela a tentativa do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, de oferecer ajuda financeira e política para evitar a delação premiada do senador Delcídio Amaral, caiu como uma bomba nos bastidores do governo e do entorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está prestes a assumir um ministério no governo Dilma Rousseff. Mas esta não é a primeira vez que um dos mais próximos colaboradores de Dilma atravessa o caminho de Lula em momentos decisivos para o ex-presidente petista.

O ano era 2006 e Lula tentava a reeleição à Presidência da República. Em setembro daquele ano, faltando pouco mais de duas semanas para o primeiro turno do pleito, aliados do ex-presidente comemoravam nos bastidores o que as pesquisas de intenção de voto indicavam: uma vitória acachapante do petista contra o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin.

Mas, no dia 15 de setembro, integrantes do PT foram presos pela Polícia Federal em um hotel da c
capital tentando comprar um falso dossiê contra o então candidato tucano ao governo do Estado, José Serra, na tentativa de implicá-lo no escândalo da Máfia dos Sanguessugas, quando ele foi ministro da Saúde do governo FHC.

Dentre os petistas presos estavam integrantes da campanha de Aloizio Mercadante (PT), adversário direto de Serra nas eleições para o governo de São Paulo daquele ano, e pessoas próximas de Lula.

Ao contrário do que fazia usualmente, a PF não divulgou imediatamente imagens da montanha de dinheiro utilizada pelos petistas para a compra do dossiê, cerca de R$ 1,7 milhão. Mas, no dia 29 de setembro, as imagens vazaram para a imprensa, causando grande impacto e revertendo o resultado das pesquisas presidenciais, levando Alckmin para a disputa do segundo turno.

Na ocasião, Lula tentou minimizar o escândalo, dizendo que seu partido não era afeito a dossiês, mas cunhou a famosa frase, atribuindo a autoria do documento “a um bando de aloprados”, que acabou batizando o episódio como “o dossiê dos aloprados”.

E mesmo conquistando a reeleição – na disputa com Lula, Alckmin obteve nas urnas menos votos do que no primeiro turno, o que para analistas comprova a tese de que o dossiê dos aloprados foi o responsável por empurrar a eleição levar mais um round -, o episódio causou ranhuras internas no partido, principalmente entre o ex-presidente petista e Mercadante.

Cinco anos depois do episódio, a revista Veja divulgou um áudio com as confissões de um dos envolvidos no escândalo, o ex-diretor do Banco do Brasil Expedito Veloso, que apontou Mercadante como um dos mandantes da operação. Mercadante negou que tenha sido o ‘chefe dos aloprados’, mas a relação com Lula, que era como de pai e filho desde que se conheceram, no final dos anos 70, jamais voltaria a ser a mesma.

*Elizabeth Lopes é repórter do Broadcast Político

Tudo o que sabemos sobre:

Aloizio Mercadanteoperação Lava Jato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: