Mentes adoecidas, vidas perdidas

Mentes adoecidas, vidas perdidas

Andréa Chaves*

17 de novembro de 2021 | 06h30

Andréa Chaves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Apesar de ser um assunto muito sério e que deve ser debatido, o suicídio ainda é tratado como tabu. Muitas pessoas acreditam que quanto mais falar sobre o tema, mais pessoas terão o pensamento de tirar a própria vida. Porém quanto mais as pessoas tiverem acesso à informação, mais elas vão buscar o conhecimento que precisam e desmistificar os mitos acerca do tema, aqueles famosos ditos populares ‘ah isso é frescura’, é coisa de gente fraca’ e ainda ‘é coisa do diabo”.

Os números preocupam, precisamos falar, temos muitas mentes adoecidas e vidas perdidas. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelam que o número de suicídios no Brasil em 2020 foi de 12.895, com variação de apenas 0,4% em relação a 2019, quando foram registrados 12.745 casos. Os estados que apresentaram maior número, repetindo o ano anterior, foram São Paulo, Minas Gerais e Porto Alegre, nessa ordem.

Um ponto que tem que ficar bem claro é de que o suicídio não acontece do nada, na maioria das vezes, a pessoa já traz sinais visíveis de que quer cometer o ato. Mas, por que falamos tanto da morte e não debatemos sobre as principais questões que dão sentido à vida? Pessoas que têm um comportamento suicida desenvolvem algumas características, entre elas o desespero, a desesperança, o desamparo, a depressão e a dependência química. Mas, diante desses sentimentos e sensações, podemos ainda desenvolver outros 5ds para vivermos uma vida plena. Será que sabemos como investir neles?

Valorização da vida

Quando falamos em incentivar a vida, falamos de 5 verbos essenciais: desfrutar, descansar, desenvolver, decifrar e decidir. Quando desfrutamos do momento presente, entendemos que estamos ligados ao aqui e agora, mesmo que não seja ideal. Conseguimos com isso combater o desespero de pensar num futuro que ainda não chegou.

Descansar, esse é um verbo muito importante. Existem coisas e situações que não podemos mudar nas nossas vidas e descansando trabalharemos nossa desesperança , porque quem descansa, espera por algo. Já desenvolver é uma outra ação fundamental que temos que ter em mente. Irmos atrás de soluções para conseguir caminhar e aí quebramos a sensação de desamparo, sabendo que há coisas que ainda precisam ser feitas, decididas.

Você já decifrou qual estação da vida você está? O problema não é a estação, o problema é você estar sem a roupa certa para ela. Às vezes você está no inverno com o tempo mais frio e colocando uma roupa mais agasalhada você passará melhor por ela. E por último, mas não menos importante, decida. Decida viver principalmente. Qualidade de vida não está ligada a tudo que desejamos, mas sim ao que decidimos para o melhor das nossas vidas. A saúde mental não é a ausência de conflitos, mas sim a habilidade que temos de ter comportamentos assertivos para dar ordem em meio ao caos.

Vamos buscar entender e cuidar mais da nossa saúde mental. Precisamos entender que ela deve ser assistida como qualquer outra área da nossa vida. O ano todo é tempo de falar, de buscar ajuda especializada. De acordo com o relatório “Suicide worldwide in 2019”, publicado pela OMS, todos os anos mais pessoas morrem como resultado de suicídio do que HIV, malária ou câncer de mama ou até guerras e homicídios. Não podemos deixar isso se alastrar mais e mais.

Não ache que terapia é para os fracos, muito pelo contrário. Pessoas que querem entender melhor suas emoções, seus sentimentos, são muito fortes e corajosas. Cuidar das emoções nos habilita a cuidar das demais áreas de nossa vida, saúde mental é pilar da qualidade de vida. Ajuste o foco, seja ajuda e ofereça ajuda. Se falar é a melhor opção, tentar acolher e aceitar são nossas grandes missões.

*Andréa Chaves é mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília. Atua no Núcleo de Saúde Mental do Samu, no Distrito Federal, única unidade de emergência no Brasil que possui equipe dedicada especialmente ao atendimento psíquico. Criou o projeto “Cuidando de quem cuida” com a finalidade de ajudar os servidores do Samu. Integra a Comissão de Prevenção ao Suicídio e Automutilação da Câmara Federal e atua na Câmara de Prevenção ao Suicídio de Recife, em Fernando de Noronha

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