Mensagens de empreiteiro sugerem que Thomas Traumann ‘vazou’ reunião do governo Dilma

Mensagens de empreiteiro sugerem que Thomas Traumann ‘vazou’ reunião do governo Dilma

Relatório da Polícia Federal na Operação Lava Jato esmiuça textos pelo celular de Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, e revela contatos com ex-ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência sobre projeto de R$ 5 bilhões para construção de aeroporto em São Paulo

Fabio Fabrini, Fabio Serapião e Mateus Coutinho

12 de julho de 2016 | 15h41

O ex-ministro da Secom Thomas Traumann. FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil)

O ex-ministro da Secom Thomas Traumann. FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Relatório da Polícia Federal sobre as mensagens de celular do ex-presidente da Andrade Gutierrez e delator da Lava Jato Otávio Azevedo sugere que o ex-ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência Thomas Traumann vazou informações de uma reunião interna do governo para o empreiteiro.

Traumann foi assessor especial da secretaria em 2011 e porta-voz da presidente afastada Dilma Rousseff a partir de 2012, no primeiro mandato da petista. Em janeiro de 2014, ele assumiu o comando da pasta, substituindo a jornalista Helena Chagas.

As mensagens do celular de Otávio Azevedo foram apreendidas pela Polícia Federal e embasam investigações da Lava Jato.

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Num torpedo de 14 de outubro de 2011, Traumann avisa o empreiteiro sobre um projeto relacionado à infraestrutura aeroportuária em São Paulo: “No café da manhã, chefa disse q o entroncamento de rotas c/ GRU e VRC inviabiliza Caieiras”.

O governo estudava a implantação de um novo aeroporto internacional em São Paulo, a ser construído em Caieiras, como alternativa aos terminais de Guarulhos (cuja sigla é GRU) e Viracopos, em Campinas.

O projeto era de interesse da Andrade Gutierrez, que elaborou junto com a Camargo Corrêa uma proposta de construção de um terminal chamado Novo Aeroporto de São Paulo (Nasp). O empreendimento teria financiamento de cerca de R$ 5 bilhões do BNDES e teria a capacidade para atender 30 milhões de passageiros por ano.

Avisado pelo assessor, o empreiteiro retrucou: “Isto foi público?” Ao que Traumann respondeu: “Não. Só ministros. Estávamos comentando a entrevista do Wagner ontem”. No dia anterior, o então ministro da Secretaria de Aviação Civil Wagner Bittencourt apresentou ao TCU um estudo sobre as concessões de Viracopos, Guarulhos e Brasília.

Questionado pela reportagem, o ex-ministro disse que não possui mais o número de Brasília e que, pelo que se lembra, a conversa dizia respeito a uma decisão anunciada pelo então ministro da Aviação Civil, Wagner Bittencourt, na qual descartava autorização para as obras do Nasp. A entrevista, contudo, foi publicada no dia 31 de outubro, 17 dias após o diálogo com Otávio, pelo jornal Valor Econômico.

Posteriormente, Traumann disse que o diálogo não envolvia nenhum assunto sigiloso e que o diálogo foi no contexto da entrega do estudo ao TCU. Na época, contudo, não foi divulgado que os estudos faziam referência ou mesmo citavam o aeroporto de Caieiras.

O relatório da PF sobre as mensagens mostra várias outras comunicações de Traumann com o executivo entre 2011 e 2014, nas quais discutem questões de governo, marcam encontros e tratam de favores.

Antes de assumir funções na Presidência, Traumann era um dos responsáveis pela comunicação corporativa da empreiteira. Em janeiro de 2012, antes de ser anunciado oficialmente como porta-voz da presidente, Traumann avisa a Otávio Azevedo: “Para você não saber pela imprensa: fui indicado porta-voz da presidenta. Deseje me sorte!”

No dia 24 de outubro de 2011, Traumann avisa o empreiteiro: “Caro, o paper q vc me pediu está estruturado. Como está a sua agenda?”

Em 11 de julho daquele ano, Traumann fazia referência a possíveis sugestões do executivo a um anúncio que seria feito pelo governo. “Muitas de suas opiniões serão aproveitadas nas regras a serem anunciadas ainda hoje”. Naquele dia, Dilma teve uma reunião de coordenação com sua equipe no Planalto.

Em outra ocasião, em junho de 2011, Traumann avisa o empreiteiro que pretendia sair do governo. “Estou pensando em ir embora.” E recebe uma oferta de emprego do executivo: “Volta para a AG. Estamos de braços abertos”.

Dias depois, Traumann declina do convite e informa que ficaria no Planalto para novas atividades. “Propuseram que eu cuidasse dos discursos e de algumas operações de imprensa da PR (Presidência)”, explicou, acrescentando: “E seguimos amigos”.

COM A PALAVRA, THOMAS TRAUMANN:

A primeira nota divulgada pelo ex-ministro:

“Não tenho mais este número de celular de Brasília, portanto, não posso checar o contexto dessas trocas de mensagens de cinco anos atrás. Pelo que recordo, se tratava da decisão anunciada em entrevista pelo então ministro da Aviação Civil, Wagner Bittencourt, descartando a autorização para a construção do aeroporto de Caeiras.  A informação havia sido publicada pelo jornal Valor Econômico, e, portanto, não era sigilosa.”

A segunda nota de Thomas Traumann:

“Não tenho mais este número de celular de Brasília, portanto, não posso checar o contexto dessas trocas de mensagens de cinco anos atrás. A frase citada nesta reportagem precisa ser contextualizada. Termino dizendo “estávamos comentando a entrevista do Wagner ontem” e se refere à apresentação feita no dia anterior pelo então ministro da Aviação Civil, Wagner Bittencourt, dos editais de concessão dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília aos ministros do TCU.  Houve ampla cobertura da imprensa ao fato. Os editais de Guarulhos e Viracopos deixaram claro que estava descartada a autorização ao aeroporto de Caeiras, dando uma vantagem aos vencedores do leilão. A informação, portanto, era público, não sigilosa.”

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