Menina de 13 anos denuncia racismo em escola na Bahia que a barrou por cabelo ‘inchado’

Menina de 13 anos denuncia racismo em escola na Bahia que a barrou por cabelo ‘inchado’

Eloah Tavares afirma ter sido proibida de entrar em colégio municipal de São Sebastião do Passé, região metropolitana de Salvador, por cabelo estar 'inadequado'

Jayanne Rodrigues

28 de março de 2022 | 16h14

 

A adolescente Eloah Tavares, de 13 anos, relatou ter sido vítima de racismo após ser proibida de entrar na instituição em que estuda por causa do cabelo não estar “adequado às regras”. O caso aconteceu no Colégio Municipal Dr. João Paim, em São Sebastião do Passé, região metropolitana de Salvador. “Nunca imaginei na minha vida que eu fosse passar por isso”, desabafou a mãe da jovem, a vigilante Jaciara Tavares, 31, em entrevista ao Estadão. A ordem foi feita por um funcionário da escola, um militar reformado responsável pela área disciplinar dos estudantes, já que a instituição adota a metodologia de ensino da Polícia Militar. Mãe e filha vão prestar depoimento na terça-feira, 29, na Delegacia Territorial de São Sebastião do Passé. 

Conforme relato da mãe, mesmo a menina estando com os cabelos presos em um coque, o colaborador considerou inadequado. A mulher contou que Eloah ainda tentou arrumar os cabelos após a advertência, mas o funcionário exigiu que ela se retirasse da sala e fosse embora para casa. A situação aconteceu na última segunda-feira, 21. Durante esse intervalo de tempo, além de ter registrado boletim de ocorrência, Jaciara também acionou movimentos antirracistas, a exemplo do Coletivo Entidades Negras (CEN), que está acompanhando o caso. 

“Ele [funcionário] não me comunicou em nenhum momento que eu precisava ir lá. Simplesmente resolveu o assunto com ela e mandou ir embora”, afirmou Jaciara. Ela estava no trabalho quando recebeu três áudios da filha via WhatsApp. Nas mensagens, a adolescente aparentou estar revoltada com a situação e suplicou para a mãe que autorizasse ela se matricular em outra escola. 

Com três filhas, Jaciara relatou que nunca imaginou que poderia passar por uma situação desse tipo. Foto: arquivo pessoal

O funcionário ainda sugeriu que Eloah fosse matriculada em outra escola.  Uma colega da menina  tentou ajuda-lá a ajustar o cabelo do modo que o homem exigiu. No entanto, segundo Jaciara, ele disse para a garota: “Não adianta arrumar o seu cabelo, mande sua mãe te colocar em outra escola”. Na ocasião, constrangida com o episódio, Eloah teria xingado o próprio cabelo.

No mesmo dia do ocorrido, Jaciara foi até a instituição conversar com o colaborador e escutou do homem que o cabelo da filha estava “inchado”. Durante a reunião, o funcionário apresentou uma cartilha com as normas do colégio. Mas a vigilante contestou que o modelo não se encaixava com o tipo de cabelo que a menina tinha. “Ali era para cabelo liso, mesmo que ela passe creme não fica do jeito que ele pediu”. 

Em seguida, ele disse que estava apenas cumprindo regras e, que se possível, a adolescente precisaria “alisar os cabelos para se adequar”. Inicialmente, Jaciara imaginou que não se tratava de um caso de racismo, mas após conversar com o homem decidiu registrar boletim de ocorrência, pois “não tinha dúvidas do crime que a filha havia sido vítima”. Naquele dia, ela afirmou que o próprio funcionário admitiu que impediu outros estudantes de entrarem na escola pelo mesmo motivo. 

Essa não é a primeira vez que Eloah é advertida por causa do cabelo. O funcionário  teria chamado atenção da menina outras duas vezes. Nessas situações, Jaciara afirmou que não foi notificada pelo colégio. “Eles querem cobrar estética e não educação”. Sobre a mudança da adolescente para a instituição, a vigilante descarta essa possibilidade. Agora ela quer que o caso se torne um exemplo para que episódios como esse não se repitam. “Eu vou adiante, eu quero justiça. Minha filha precisa ser livre com o cabelo dela”, destaca. 

“Eu fiquei pensando na vulnerabilidade que minha filha passou naquele momento. Ele constrangeu ela na frente de outras pessoas, sem contar no ato racista”, lamentou.

“O racismo é tão estruturante que a pessoa não percebe. Implantar isso nas escolas e tratar isso como algo a ser normalizado nesta conjuntura é voltarmos para a idade média”, ressaltou Marcos Rezende, presidente do Coletivo Entidades Negras. 

COM A PALAVRA, A SECRETARIA DE PROMOÇÃO DE IGUALDADE RACIAL DA BAHIA 

A reportagem do Estadão entrou em contato com a assessoria da secretaria, mas até a publicação deste texto não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação (jayanne.rodrigues@estadao.com)

COM A PALAVRA, O COLÉGIO MUNICIPAL DR. JOÃO PAIM

A equipe tentou contato com a instituição por telefone, mas não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.