Memórias do subsolo: novela atual do desencontro do que se vê para o que se sente

Memórias do subsolo: novela atual do desencontro do que se vê para o que se sente

Maria Francisca Mauro*

22 de julho de 2021 | 10h30

Maria Francisca Mauro. FOTO: DIVULGAÇÃO

No livro Memórias do subsolo, Fiador Dostoiévski, um autor russo do século XVIII, narra de forma brilhante questões existenciais universais através de seu personagem que em torno de 40 anos tinha dentre seus “sofreres” uma feiura defeituosa. Para além das lentes de aumento das redes sociais e toda sorte de instantaneidade que marca nossa contemporaneidade, esta forma de sofrimento já se encontrava descrita ao longo da literatura.

Portanto, não é somente atribuir que os tempos modernos criaram uma percepção de pressão pela imagem. Pessoas que vivenciam um ponto do seu corpo como defeituoso, ou de extrema feiura, não são vítimas da imagem que se propaga. Anteriormente, tem esta certeza do “defeito” impregnado em suas mentes.

Não existe espelho que os convença do contrário. Não é uma insatisfação relacionada ao corpo ou imagem devido a estar fora do peso, ou mesmo, acentuada por alguma perturbação na relação com a comida, como nos transtornos alimentares. Esta certeza do defeito é específica a algum ponto do corpo e consome o pensamento da pessoa de forma obsessiva, sem trégua.

Tais comportamentos podem ser classificados como Transtorno Dismórfico Corporal, que atinge cerca de 2% da população mundial. No Brasil, estima-se que mais de quatro milhões de pessoas, entre 15 e 30 anos, sejam diagnosticadas com o quadro.

Dados de estudos em centros de atendimentos para pessoas com diagnóstico psiquiátrico, dentro do espectro do transtorno obsessivo compulsivo, mostram que 12% dos brasileiros desse grupo sofrem por algum ponto específico no corpo, no qual acreditam ser defeituoso.

Nas pessoas que sofrem com essa questão, ocorre um pensamento persistente de que há um defeito em um ponto específico do corpo. As partes mais comuns são rosto, nariz, sobrancelhas, cabelos, bochechas, dentes e pele.

Para poder disfarçar ou esconder esse local, a pessoa realiza rituais compulsivos, como se olhar várias vezes, usar bonés e bandanas, ou algum vestuário que camufle a área. Para além dos pensamentos que invadem a mente e atos repetitivos, em alguns quadros mais graves o indivíduo pode lançar mão de tesouras, estiletes ou mesmo realizar procedimentos cirúrgicos ou outras intervenções.

No mundo real das pessoas que sofrem com o Transtorno Dismórfico Corporal, seu espelho interior é vivo, fala e fiscaliza. Seu subsolo interno é marcado por uma certeza de que aquele defeito precisa ser escondido, ou mesmo, cortado fora de sua vida.

Esse comportamento costuma aparecer na adolescência. É nesta fase em que se abre um caminho secreto dentro da pessoa, que acredita que deve resolver este problema com intervenções cirúrgicas ou procedimentos estéticos. A proporção dentro de clínicas de cirurgia plástica pode atingir 12.3%, em centros para rinoplastia, 20.1%, na odontologia estética, 5.2 %, e nos centros de cirurgia dermatológica estética, 9.2 %.

O emocional é o centro do problema

Grande parte das pessoas que sofrem com o Transtorno Dismórfico Corporal tem a certeza de que o problema que elas apresentam é físico, não emocional, o que faz resistirem a um tratamento psiquiátrico.

Neste grupo também ocorre, em maior proporção, outros transtornos psíquicos, principalmente depressão, fobia social, risco de suicídio, transtornos alimentares. Eles não podem ser negligenciados devido ao grande impacto que determinam na vida destas pessoas.

Estudos demonstram que em detrimento a algum procedimento realizado neste “defeito”, o quadro permanecerá inalterado. O tratamento, portanto, consiste na avaliação psiquiátrica, com uso de medicamentos que possam atenuar esse grande sofrimento emocional. Além de psicoterapia focada para que a pessoa possa diminuir sua autocrítica e conseguir se perceber de uma forma mais global, deve reforçar a sua capacidade de não se deixar limitar a este ponto como se fosse único em sua vida.

*Maria Francisca Mauro, mestre em Psiquiatria pelo PROPSAM/UFRJ

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