Melhorar a qualidade do ar dos ambientes internos é questão de saúde pública

Melhorar a qualidade do ar dos ambientes internos é questão de saúde pública

Henrique Cury*

21 de junho de 2021 | 04h30

Henrique Cury. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde a morte de Sérgio Motta, ministro das Comunicações do governo FHC, em abril de 1988, o Brasil entrou na trilha da regulação de normas em relação à manutenção e verificação dos parâmetros da qualidade do ar em edifícios. O ministro foi vítima de um grave processo inflamatório nos pulmões causado por uma bactéria que foi transmitida pelo ar dentro do prédio em que trabalhava. O então ministro José Serra, em agosto do mesmo ano, sancionou a portaria 3523, do Ministério da Saúde, que implicou na criação da RE 09 da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, em 2003, que estipula parâmetros e metodologias para se ter um ar adequado dentro de espaços comerciais.

Diferentemente de países europeus e, principalmente dos Estados Unidos (que utilizamos como referência na elaboração dessas normas), o Brasil nunca conseguiu levar adiante o debate sobre a importância da qualidade do ar interno, envolvendo os órgãos governamentais e a sociedade. Apesar da legislação vigente, nunca houve uma fiscalização adequada e nem conscientização por parte da sociedade.

Em 2008, com a criação do Qualindoor, o Departamento Nacional de Qualidade de Ar da Abrava – Associação Brasileira de Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento, um grupo de profissionais especializados em tratamento e qualidade do ar tornou-se a interface entre o governo e a sociedade no desenvolvimento de normas e esclarecimentos sobre os malefícios que a baixa qualidade do ar pode gerar aos seus ocupantes. Mais recentemente, estudos da Universidade de Harvard demonstraram que a qualidade do ar interna influencia diretamente na produtividade dos colaboradores e na redução ou aumento do absenteísmo.

A pandemia da Covid-19 trouxe luz a este assunto e, após mais de um ano, o mercado foi inundado por informações, protocolos e tecnologias dos mais variados tipos. O excesso de informação desnorteou o mercado que, muitas vezes, sem embasamento técnico, acaba utilizando equipamentos sem eficiência comprovada cientificamente que podem, em alguns casos, até piorar a qualidade do ar. Em face disso, foi criado, neste ano, o PNQAI- Plano Nacional de Qualidade do Ar Interno, que reúne mais de 30 organizações, como Fiocruz, Confea, USP, Senai, entre outras de igual importância. Integrantes do plano vêm se reunindo regularmente e trazendo ao debate o que há de mais eficiente, seguro e legalmente embasado para termos um ar adequado.

A ventilação e a filtragem continuam sendo os principais métodos para obtenção de um ar satisfatório. Entretanto, várias são as limitações desses métodos, que foram bem expostas durante a pandemia. Muitos aspectos devem ser verificados sobre a troca de ar e a qualidade e eficiência de filtros a serem usados, sempre se atentando a legislações específicas como as de hospitais e salas limpas, por exemplo. As medições microbiológicas, exigidas por lei semestralmente, devem ser regularmente cumpridas por laboratórios acreditados ao INMETRO – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, do governo federal.

Na enxurrada de produtos, equipamentos e tecnologias que surgiram com a pandemia para purificar o ar, deve-se sempre ter muito critério nas escolhas. Testes de laboratórios de primeira linha, como os do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) ou do FDA (Food and Drug Administration), são importantes para comprovar a eficiência e, principalmente, a segurança desses dispositivos. Entende-se como tecnologias já consolidadas e amplamente estudadas a luz ultravioleta, para descontaminação do sistema de ar condicionado, o gás ozônio, para o tratamento de ambientes desocupados, e tecnologias ativas de última geração como a foto-catálise, para descontaminação de ambientes ocupados.  Estas últimas maximizam a utilização dos filtros e da renovação do ar, justamente prevenindo a transmissão ativa, entre pessoas, diminuindo consideravelmente o risco de contaminação pelo Sars-CoV-2, além de inúmeros outros patógenos.

A qualidade do ar interno envolve o tratamento de vários tipos de microrganismos (vírus, bactérias e fungos), de gases voláteis gerados pelos ocupantes e pelo mobiliário instalado (formaldeídos, monóxido de carbono, dióxido de carbono, entre outros) e de material particulado – a poeira, responsável pelo transporte dos microrganismos causadores de inúmeras doenças pulmonares.

Sempre houve intensos debates sobre a qualidade da água que tomamos e da comida que ingerimos. Chegou a hora de darmos a mesma atenção ao ar que respiramos. A mobilização da sociedade através do PNQAI é uma demonstração do interesse e da importância deste tema, que foi escancarado com o advento que vivemos. Espera-se que os órgãos governamentais competentes se envolvam da mesma maneira, com o intuito de trazer às pessoas uma melhor qualidade de vida por meio do ar que elas respiram. A qualidade do ar interno é uma questão de saúde pública e a pandemia nos mostrou isso da forma mais explícita possível.

*Henrique Cury é integrante do Comitê de Qualidade do Ar Interior do Green Building Council Brasil e foi presidente do Qualindoor Abrava. Há 15 anos no mercado de qualidade do ar, é diretor responsável pelas operações da Ecoquest na América Latina

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