Medo da flor

Medo da flor

Angel Machado*

15 de dezembro de 2020 | 03h00

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Escrevo para os que gostam de ler; para as pessoas que debatem ideias, ainda que diferentes das minhas, mas, sem assumirem o posto de guardiãs da verdade ou do absolutismo de uma vertente – sobre qualquer assunto que envolva saúde pública, sociedade ou política. Escrevo para as pessoas com alma, para os que suscitam esperança e permanecem lúcidas com a paisagem seca de empatia pública. Segundo a escritora americana Joan Didion, “os escritores estão sempre traindo alguém”.

Gosto de pessoas esclarecidas que não agem por impulso, mesmo quando a civilidade é a única alternativa. Sim, podemos estar em lados opostos e manifestar respeito mútuo. Quanta generalidade política! A corrupção continua, e o presidente (sem partido) dança sobre a ilegalidade na cara dos brasileiros, com a sua mentalidade tacanha, própria dos que pensam que a vida é um prato quente.

O futuro exige prudência, ainda que tenha caído em desuso. Só a civilidade pode ensaiar outro olhar sobre o caos instaurado. O que estamos a normalizar em 2020? Talvez um grande balaio de misérias e injustiças, com intolerantes sociais a disseminarem notícias falsas e, nesse embate, também, os céticos, os agnósticos, os crentes e os fanáticos.

É sensato pensar no futuro, mas os interessados divergem.  As estruturas políticas não têm demonstrado aptidão para lidar com ele, salvo, as exceções que se esmeram na preservação de boas práticas para garanti-lo, ainda que sem adesão significativa.

Muitas expectativas geraram frustrações, mas o Brasil sempre sobreviveu a essa herança. Entretanto, o que estamos a ver no país com a lente de aumento são os extremos devastando o sentido de humanidade no povo. Politicamente, a estratégia de colocar o Bolsonaro no poder foi um desastre, por inumeráveis e comprovados motivos.

Este ano será lembrado pelo embate entre a Ciência e a ignorância do governo brasileiro diante da pandemia, das perdas incalculáveis de vidas, do Pantanal e a Amazônia em chamas, de ministros incapazes, dos três poderes desgastados, a mesmice dos que dominam, e os dominados cada vez mais fanáticos pela destruição do bem comum.

Era impensável colocar a culpa só no governo depois de tantas tragédias. Os brasileiros não são indiferentes aos que sofrem. Não será o medo da flor que afligirá os insensíveis, mas sim a sua incapacidade de vê-la de acordo com as suas esperanças. É desnecessário solicitar consciência preventiva, mas é sempre recomendável exigir que se tenha vergonha. As incertezas para 2021 continuam, mas o Brasil já perdeu.

*Angel Machado é jornalista e escritora

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