Medidas para mitigar efeitos do coronavírus podem comprometer a engrenagem econômica pós-covid-19

Medidas para mitigar efeitos do coronavírus podem comprometer a engrenagem econômica pós-covid-19

Rafael Pereira*

18 de junho de 2020 | 03h00

Rafael Pereira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Crise sem precedentes e que se instalou globalmente, a pandemia causada pelo coronavírus mudou o mundo, transformando desde as relações de trabalho até simples comportamentos de higiene e convivência social. Com uma paralisação abrupta da atividade na maioria dos setores, redução na circulação de pessoas e quarentenas para mitigar os efeitos da covid-19, a economia sofreu abalos em todo o mundo. Estimativas recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI), que devem ser revistas para baixo em breve, apontam que a economia global está encolhendo 3% neste ano, a recessão mais profunda desde a Grande Depressão nos anos 30.

No Brasil, que começou o ano dando sinais de retomada econômica, uma série de iniciativas têm sido anunciadas e efetivadas desde que a crise se tornou aguda em meados de março. O auxílio emergencial de R$ 600,00 do Governo Federal, o corte da taxa básica de juros pelo Copom (Comitê de Política Monetária), agora em 3% ao ano, e as diversas medidas que injetaram bilhões de reais em liquidez no sistema financeiro são algumas das ações que merecem destaque.

De fato, todas as intervenções necessárias para garantir que consumidores e empresas atravessem a pandemia da forma menos traumática são bem-vindas, e o governo tem feito sua parte dentro do possível.

No entanto, ainda estamos analisando tudo o que tem acontecido sob uma ótica momentânea apenas. É preciso começar a pensar na crise a médio e longo prazo. O processo de volta à normalidade não será rápido, uma vez que houve um abalo importante na confiança de empresas e família, além do impacto financeiro de curto prazo sobre eles. É necessário pensar em como fazer a engrenagem da economia voltar a girar assim que a crise de saúde estiver estabilizada. Para que isto aconteça de forma menos traumática, é crucial preservar as principais peças que fazem com que essa engrenagem funcione.

Em outras palavras, não adianta pensar em remédios que apenas tratam os efeitos econômicos de forma paliativa durante o momento da crise de saúde. É  preciso pensar em remédios que neutralizem o caráter destrutivo ou de sério comprometimento ao funcionamento da engrenagem na sequência.

Vemos com preocupação algumas medidas que podem inicialmente parecer boas ideias,  entre elas a limitação de taxas de juros que bancos podem cobrar em alguns produtos, como cartão de crédito, a manutenção artificial de limites que eram oferecidos pré-crise, congelamento de dívidas, aumentos de impostos e mudanças nos sistemas de proteção ao crédito, impedindo que as informações sobre a real capacidade financeira de indivíduos e empresas seja enxergada pelo mercado. O motivo da preocupação é que estas medidas não resolverão o problema imediato e criarão um enorme problema iminente.

Nossa tendência natural em um momento como esse é tentar criar mecanismos artificiais, pensando que a engrenagem funcionará melhor do que antes, mas a história demonstra que quase nunca esses mecanismos dão certo. Em vez de tentar forçar ações artificiais, poderíamos aproveitar o momento e nos unirmos para implementar medidas que fortalecerão as peças fundamentais e criarão incentivos positivos para os agentes econômicos.

Um exemplo claro é a tecnologia, que neste momento se tornou ainda mais fundamental em nossas vidas, em todas as áreas, desde o comércio eletrônico até as fintechs, que podem exercer um papel crucial ao fazer com que recursos cheguem a pequenos negócios e famílias, de uma forma totalmente digital e com baixo custo operacional. Criar políticas que incentivem a concorrência, garantam a segurança, favorecendo os investimentos e reduzindo burocracias para companhias de alta tecnologia, deve ser muito mais benéfico para os desafios que estão por vir.

Por fim, a única coisa que é comum a todas as crises é que elas têm começo, meio e fim. Apesar da gravidade e da característica única desse momento, na qual a crise econômica é consequência direta de uma questão de saúde, precisamos manter a cabeça no lugar para sermos capazes de planejar nosso processo de retomada e executá-lo com muita responsabilidade, entendendo que nossas ações agora terão consequências positivas ou negativas por vários anos.

*Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD)

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