Medicina diagnóstica: o serviço (nada) secreto contra a covid-19

Medicina diagnóstica: o serviço (nada) secreto contra a covid-19

Alessandro Ferreira*

30 de março de 2021 | 07h00

Alessandro Ferreira. FOTO: LEO LARA

Os dados não mentem. E indicam muito sobre o que vem pela frente ou, no caso, o que viria pela frente. Em novembro do ano passado, houve aumento no volume de testes para identificação da Covid-19, acompanhado do aumento de positividade. Em dezembro, as filas em laboratórios dobravam quarteirões. Os sinais eram claros: a curva de contágio estava mudando. Tinha mais gente infectada, e também mais gente se testando, seja para diagnosticar a doença ou conseguir o aval para viajar.

Como em uma guerra, que tem seu núcleo de espionagem, que não deixa de ser um núcleo de inteligência, em uma pandemia, existe a medicina diagnóstica. Aquela que aponta para onde a disputa está indo e o que deve ser feito. É a que fornece as informações de quem está doente, o que está causando a doença e qual o tamanho do problema para se tomar as medidas necessárias. Criar barreiras sanitárias, tratar com qual vacina, adotar algum medicamento (o que não é o caso com o coronavírus)? Sem a medicina diagnóstica, a gente luta contra um inimigo que não conhece e nem sabe onde está.

O que o Brasil vive hoje, infelizmente, não é surpresa. A inteligência havia identificado. O RT-PCR (único exame capaz de apontar com segurança quem tem o vírus e quem não tem) mostrou os dados. Acontece que doenças transmissíveis não são controladas sem a adesão da população. Podemos cobrar soluções das autoridades com relação a eficiência dos hospitais para atender os doentes, de iniciativas para obter vacinas, medidas restritivas, enfim… Mas sem a ajuda das pessoas não existe saída. Por isso, polarizar politicamente um assunto como esse ou ignorar o que está acontecendo é o que nos traz aos dias de hoje.

Quando em setembro e outubro, as pessoas viram a doença regredindo, ficaram com uma falsa sensação de controle. Para piorar, os testes rápidos, com sensibilidade muito abaixo do RT-PCR (que produzem uma quantidade considerável de falso negativo), foram usados como uma espécie de Habeas Corpus para a aglomeração. Muita gente resolveu aproveitar o calor e as datas festivas como se estivesse tudo bem. Mas a medicina diagnóstica tinha alertado: não estava nada bem. Faltou olhar para os números de novembro, de dezembro. Faltou a conscientização de parte da população para não curtir as festas de fim de ano e o Carnaval fantasma, aquele que, só na teoria, não existiu.

É como a dengue, que o governo alerta anualmente da necessidade de evitar água parada e, a cada dois anos, temos surto da doença. Não defendo aqui o Governo de nenhuma esfera, mas a responsabilidade compartilhada. É preciso entender que a Covid-19 não vai passar se as regras não forem cumpridas. E aí não me refiro à ida ao trabalho, que se faz necessária para os cidadãos, ou deslocamentos inevitáveis. Me refiro a festividades! No momento em que as pessoas estão morrendo e esperando na fila das UTIs, não é hora de celebrar nada. A medicina diagnóstica segue firme, como o Serviço Secreto na guerra contra a pandemia, apresentando dia após dia os dados. Não vê quem não quer.

*Alessandro Ferreira, vice-presidente do Grupo Pardini

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