Médica, paulista, 47 anos, dois filhos e uma história de superação

Médica, paulista, 47 anos, dois filhos e uma história de superação

Moradora de área nobre de São Paulo, ela foi vítima de violência doméstica, mas deu a volta por cima; livrou-se do marido agressor, também médico, e hoje é feliz, casada com um marceneiro.

Redação

08 de março de 2015 | 05h00

“A gente se conheceu em um hospital, ele também é médico. Como todo bom psicopata, sabe agradar, conquistar. Eu casei em 1997. Com dois anos de casada, já começou a falta de respeito, com traição. Depois veio um filho, as coisas foram piorando. Até hoje eu posso lembrar, nunca fui elogiada, incentivada a nada. Essa falta de respeito vai aumentando e a agressão física começa a aparecer. Como ele tinha razão, um dia, numa discussão, segurava forte no braço, ficava marca. Depois isso passa. Não se fala nada, você na submissão vai encolhendo e ele vai crescendo.

Você vê que eu uso uma órtese na mão. Ele quebrou esse dedo. A briga foi por causa da descoberta de uma traição. Eu estava grávida de 7 meses, com um filho de 1 ano, e fui perguntar: por que isso? O que eu fiz de errado para merecer isso? A gente ainda assume a culpa. Ele me jogou da cadeira. A piranha que estava segurando meu cabelo entrou no couro cabeludo e o sangue começou a escorrer. Ele foi falando, segurando no meu dedo, falando, falando, falando até quebrar. Eu perdi a força do dedo, teve uma degeneração da articulação, que nunca mais curou. Tenho dores até hoje.

Eu levei cinco anos, depois dessa agressão, para ter força para me separar. Eu falava que eu não gostava de apanhar, que não me sentia bem, que isso era humilhante para mim. Ele pedia desculpas, falava que tinha bebido um vinho e passava por cima. Eu tive várias fases. Primeiro, esperar que ele mudasse e, depois, mudar meu comportamento. Passar a ficar calada e não discutir, evitar brigas. Tentei de tudo. Ir à Igreja, rezar à noite com a mão na cabeça dele para ver se ele mudava.

Foto: Marco Zaoboni.

Foto: Marco Zaoboni.

Outra agressão começou com uma discussão de bobeira em casa. Eu não estava concordando com o que ele falava, era um assunto financeiro. Eu falei: eu também trabalho, ajudo, cuido dos filhos. A minha filha já tinha nascido. Ele tentou me enforcar. Eu não falei nada, só a lágrima escorrendo. Só ouvi. Ouvi para não apanhar mais, senão eu ia morrer, né? Ele foi dormir, sem culpa nenhuma, com toda a razão. A minha garganta começou a fechar, senti falta de ar, liguei para a minha mãe e fui para o hospital. Como era a segunda agressão que eu ia para lá, eles me encaminharam direto para a delegacia. Eu não tive alta do hospital enquanto não tivesse a polícia envolvida.

Eu não estava satisfeita com a minha situação, só que eu não tinha coragem, eu tinha medo de invadirem a privacidade dele, de alguém ficar sabendo, da polícia, de um processo. Eu tinha medo da reação. Mas dessa vez eu não tive outra chance. A delegacia foi acionada, eu fui transferida para lá, tive que fazer um boletim de ocorrência, ir pro IML de novo. Foi nesse dia, no IML, que… Às vezes, eu lembro e me emociono. Eu olhei para a minha mãe, e vi a cara dela quando o perito falou: “A próxima vez, sua filha vai chegar morta.” Eu olhei para a cara da minha mãe e vi um desespero. Nisso, eu falei: eu preciso tomar uma atitude. Pior do que estava, não ia ficar. Eu já estava completamente escorraçada, não tinha moral nenhuma. Vivia na inércia, esperando a próxima surra, sem a oportunidade de falar nada, de manifestar nada, porque sabia que a violência ia acontecer, de palavras ou fisicamente.

Aos poucos, uma energia foi crescendo em mim, dia após dia, com pensamentos positivos. Eu fui aprendendo a ouvir as humilhações e os desaforos e não absorver. É como se eu criasse um escudo para as palavras não me atingirem mais. Isso fez o meu amor próprio renascer. Eu consegui ver a situação da minha família, dos meus filhos de fora, como se eu não tivesse envolvida. Eu não ia conseguir mudar um cara agressivo e sem sentimento.

No trabalho e amigos, ninguém me ajudou. Ainda recebi conselhos assim: ‘Homem é tudo igual, homem trai mesmo’, ‘Pelo menos, você está com o pai dos seus filhos. Homem está difícil’. A vontade vem da gente de viver melhor. Ninguém sabe o quanto era ruim o que eu passava. Você começa a pensar que tudo que você tem não vale mais a pena. Não vale mais morar nessa casa, ter carro e se submeter a isso. Vale a pena ir para uma casa mais simples, trabalhar e ir conquistando suas coisas.

Fui até a advogada e não falei com ele. Colhi orientações e o que eu deveria fazer. Conversei com ele em um dia tranquilo, disse que a gente poderia se separar. Ele falou que não ia sair de casa, que se eu quisesse, eu sairia. O que eu fiz? Entrei na Justiça. O oficial de justiça chegou numa hora em que eu não estaria em casa. Como ele era uma ameaça a mim e aos meus filhos, eu já tinha dois boletins de ocorrência, lesões, ele foi tirado da minha casa em 48 horas com um mandado de segurança. Foi super eficiente. Quando o agressor se vê ameaçado, ele retraí. As mulheres não sabem isso. Quando você faz uma denúncia, ele fica quietinho.

Depois que eu me separei, em 2007, resolvi me dedicar à profissão e aos filhos. Não pensava em casar de novo. Entrei num consórcio de imóveis e consegui sair do aluguel. Vim morar nesse apartamento e contratei uma empresa para fazer porta, divisória, para deixar a casa do jeito que eu queria. Fui lá e conversei com o marceneiro. Ele era viúvo, criava os filhos. Você está rindo, porque já sabe, né? Durante a obra, eu vi o que é respeito, atenção e cuidado. Eu comecei a namorar e casei com o marceneiro, em 2011. Eu falo para as minhas amigas que eu sou a rainha do marceneiro e não o pano de chão do médico.

Meus filhos adoram meu marido, se dão super bem desde o começo. Um homem que agride uma mulher não trata bem os filhos. Ele pode não agredir, mas não dá atenção. Eles percebiam um clima de desrespeito, apesar de nunca terem presenciado uma agressão. Eu mudei a minha vida e valeu a pena. Eu dei exemplo pros meus filhos do que é ser e não do que é ter. Meu padrão mudou, mas com a minha força, eu já consegui tudo de volta sozinha, sem depender de ninguém. Aqui, as pessoas se preocupam em respeitar. O respeito é valorizado. Isso eu conquistei. A mulher desde cedo pode ter essa força interior e impor o respeito, desde a balada. A gente tem direitos, vontades e sentimentos. Não é para ter medo ou murchar. É para ter força e sobreviver”.

 

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