Matemática para a paz

Matemática para a paz

José Renato Nalini*

02 de janeiro de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Interessante e instigante a Tese de Doutorado defendida por Marcílio Leão na UNESP, sob o título Educação Matemática, Sociedade e Meio Ambiente: reflexões sobre violência social e ambiental. Um estudo transdisciplinar e crítico em uma pesquisa Etnomatemática”.

O orientador era o notável Professor Ubiratan D’Ambrosio, que faleceu em 2021, em pleno curso da elaboração do trabalho. Assumiu a orientação o Professor José Silvio Govone e tive o privilégio de integrar a Banca de arguição, ao lado dos professores Carmen Maria Andreazza, Roger Miarka e Enio Antonio Almeida.

A história de vida de Marcílio Leão é uma recomendação a que se examinasse a tese com olhos atentos. É cabo da Polícia Militar e enfrenta, em sua profissão, o fenômeno da violência. Por tragédia pessoal, interessou-se ainda mais pelo tema e se propôs ofertar uma análise sobre as possibilidades do ensino/aprendizado de matemática atuarem como fator de redução da violência.

O resultado é uma tese que, longe de ser repositório de platitudes ou exibicionismo de erudição vã, é uma consistente contribuição a um novo olhar sobre a matemática, nem sempre considerada a mais atraente dentre as ciências duras. A proposta é tão mais importante quando se constata o atraso do Brasil em pesquisa pura, a falta de pessoal qualificado para atender à demanda das novas empresas, ávidas por profissionais habilitados em matemática, física, química e outros saberes negligenciados, em favor de um excessivo e superficial interesse por “humanidades”.

Marcílio Leão também evidenciou uma afeição profunda e consistente pela ecologia. Tem consciência de que os pensadores mais influentes consideram o aquecimento global o maior perigo para a humanidade. A matemática poderia mostrar para a juventude o custo do desmatamento, as pesadíssimas perdas do Brasil quando extermina a sua cobertura vegetal e o que a balança comercial perderá, quando o Primeiro Mundo deixar de adquirir nossas comodities, produzidas em terra devastada.

O agora Doutor Marcílio Leão realmente elaborou uma tese, adotando o conceito relativamente pouco explorado, a etnomatemática. Foi uma valiosa contribuição do Professor Ubiratan D’Ambrosio, baseando-se no anacronismo do ensino da matemática. O elaborador desse conceito faleceu em 12.5.2021, sem assistir à defesa da tese que inspirou. A etnomatemática pode ser valiosa ferramenta de busca de um convívio harmônico, exatamente o que o constituinte de 1988 prometeu no preâmbulo do pacto cidadão: edificar uma sociedade fraterna, justa e solidária. A proposta concreta de um projeto para implementação daquilo que já existe sedimentado no discurso, mas não na prática, evidencia como é importante a transdisciplinaridade. Nenhuma ciência se basta a si mesma. Aquela que não dialoga com as demais fenece como instrumento de aprimoramento da sapiência humana e de surtir efeitos no convívio entre as pessoas.

A matemática nem sempre é a disciplina favorita do estudante. Falha no método de ensino? Todavia, ela é imprescindível. Está em todos os nossos passos e experiência. A dona de casa – o exemplo foi da examinadora Carmen Maria Andreazza – tem de dividir a massa para que os seus biscoitos tenham idêntica dimensão, existe a matemática do meeiro na faina agrícola – um separa as porções e o outro escolhe – e fala-se em matemática do pedreiro, do marceneiro, do encanador, do eletricista.

Os saberes matemáticos estão impregnados em nossa cultura. Isso é a etnomatemática, um conceito amplíssimo, para entender como a espécie humana desenvolveu suas fórmulas de sobrevivência e que, além de tudo, torna sedutor o aprendizado da matemática.

Depois de fazer pesquisa com duas escolas de ensino médio da rede pública e com os internos de uma Fundação Casa, o doutorando Marcílio Leão tem consciência de que o ensino da matemática pode ajudar a tornar as pessoas mais tolerantes, mais compreensivas, mais generosas.

Ele demonstrou, em sua tese, que há vários usos transversais da ciência matemática, para fazer com que o alunado se interesse por ela, pois tudo é matemática. Até a natureza, como a biologia já comprovou. Sugeri que ele também insista na demonstração do custo-Brasil, por conta da violência. O que significa, para esta Pátria, o assassinato de setenta mil jovens por ano, o custo social para as famílias afetadas, o peso insuportável para o combalido sistema previdenciário, o custeio dos equipamentos de saúde. Se esses recursos do povo fossem poupados, o quão mais fácil seria o enfrentamento das nossas questões primordiais: saneamento básico, trabalho, moradia, educação e saúde de qualidade.

Também não é de se desprezar o custo do sistema prisional. Esta nação, a terceira maior carcereira do planeta, prende muito e prende mal. Tal resposta de aprisionamento fez refrear a criminalidade?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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