Máscaras e seus símbolos

Máscaras e seus símbolos

Ana Cassia Stamm*

27 de maio de 2020 | 03h30

Ana Cassia Stamm. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quem não conhece este objeto de desejo do ano de 2020? Uma máscara é um acessório utilizado para cobrir o rosto. É utilizada para diversos propósitos: lúdicos, religiosos, artísticos ou na saúde. Mas sabia que Carl Jung, fundador da psicologia analítica, cunhou um conceito para explicar uma das mais importantes formas de adaptação à nossa realidade? Vamos juntos entender.

Durante séculos as máscaras foram utilizadas para rituais por chineses, egípcios, gregos, índios. Foi também durante a Grécia Antiga que surgiram as máscaras teatrais.

Na área da saúde, as máscaras apareceram por volta de 1910. Mas séculos antes, as pessoas improvisavam máscaras para cobrir seus rostos. Christos Lynteris, professor da Universidade de St. Andrews, na Escócia e especialista em história das máscaras médicas, conta que pinturas da Era Renascentista mostravam pessoas cobrindo o nariz com lenços para evitar doenças.

Obras de arte francesas mostram pessoas que manuseavam corpos da peste bubônica em 1720, com um pano em volta do rosto. Durante o surto de peste negra na Europa, na Idade Média, os modelos de máscaras eram alongados parecendo grandes bicos de pássaros e possuíam dois orifícios nas narinas.

As primeiras notícias de máscaras cirúrgicas por médicos ocorreram em 1897. O material consistia em um lenço amarrado ao redor do rosto e eram usadas para impedir que os médicos tossissem ou espirrassem saliva no paciente durante a cirurgia.

A partir das máscaras cirúrgicas criadas no Ocidente, na China desenvolveu-se uma máscara mais dura, feita de gaze e algodão, que era enrolada em volta do rosto, adicionando várias camadas de pano para filtrar as inalações.

Em 1911 a produção de máscaras teve um salto. O item passou a ser usado por médicos, soldados e pessoas comuns. A invenção não só ajudou a impedir a propagação de pragas, como se tornou símbolo da ciência médica moderna.

Jung, um estudioso sem igual de mitos e histórias de outros povos, conhecendo o simbolismo das máscaras, cunhou o conceito de persona para explicar como os indivíduos se comportam com relação ao mundo exterior.

Segundo ele, para adaptar-se às exigências deste mundo, as pessoas assumem uma aparência que não é a sua autêntica. Apresentam-se como a sociedade quer, isto é, como as pessoas esperam que elas sejam e não como realmente são. Usam máscaras para não se contaminar de críticas e julgamentos deste mundo. A essa aparência artificial (ou fake), Jung dá o nome de persona, que seria uma máscara (tal qual a do ator que interpreta um papel).

O problema seria identificar-se com ela. Quanto mais a máscara aderir à pele do ator, mais dolorosa será a operação psicológica para separá-la, pois se imagine representar um papel por anos e descobrir-se totalmente diferente do que imaginava. Usar uma máscara por anos e descobrir que ela não protege de nada!

Mundo, 2020, pandemia do coronavírus (covid-19), estudos concluem e diversos países obrigam (ou sugerem) o uso da máscara (caseira ou fabricada) como segurança, isto é, efeito de rede: a minha máscara te protege e a sua máscara me protege.

Poderíamos lembrar que ela, nos primeiros segundos, nos afasta quando não olhamos para a metade do rosto coberta, evidenciando os olhos (segundo alguns o espelho da alma).

O mais nocivo que pode acontecer é a nossa identificação com ela, nos levando a utilizá-la como forma de afastamento dos outros com medo das relações como se elas fossem nos adoecer. Como se os outros nos contaminassem.

Lembramos que o propósito da importante proteção é apenas momentâneo e, daqui a pouco, quando autorizado pelos órgãos competentes, serão devolvidas aos profissionais que delas normalmente fazem uso nas suas devidas áreas.

O lado bom é que tenho visto que esse gelo dura pouco quando nos esforçamos para falar mais alto, numa distância sugerida de mais de um metro, mas expressamos com os nossos olhos e gestos o desconforto, o medo e o objetivo de estarmos assim “vestidos”. E sorrimos! Assim estamos aprendendo a valorizar o outro humano e as nossas relações, como nunca valorizamos.

Estas marcas profundas que estamos vivendo nesta época muito nos ensinarão e ampliarão nossa consciência, evidenciando o respeito e a responsabilidade conosco e com os nossos próximos!

*Ana Cassia Stamm é palestrante, socióloga, psicóloga e psicoterapeuta vibracional

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