Máscaras duplas podem prevenir disseminação das novas variantes da covid-19

Máscaras duplas podem prevenir disseminação das novas variantes da covid-19

Catherine Clase, Charles-Francois de Lannoy, Juan Jesus Carrero, Roberto Pecoits-Filho e Scott Laengert*

05 de março de 2021 | 07h00

PUCPR/DIVULGAÇÃO

O “duplo mascaramento” surgiu como um método coletivo para adicionar camadas extras às nossas máscaras (as que já temos) – uma resposta às preocupações generalizadas sobre desdobramentos da pandemia e a alta transmissão de novas variantes da Covid-19. Quando nosso grupo recomendou máscaras de pano como um esforço adicional válido para reduzir o contágio, algumas das máscaras que identificamos na literatura eram máscaras de três e quatro camadas: em um ambiente experimental, elas foram muito eficazes no bloqueio de partículas exaladas pelo usuário.

Somos um grupo de epidemiologistas e engenheiros que têm trabalhado para resumir o que se sabe sobre as propriedades de filtração dos produtos têxteis, para manter um website em linguagem simples – clothmasks.ca – e para criar novos conhecimentos sobre os melhores tecidos para usar e os melhores designs para máscaras. Com base em nossa revisão de pesquisa, recomendamos máscaras de duas a quatro camadas e fornecemos um padrão para fazer uma máscara de quatro camadas. Quatro camadas é um desafio, no entanto, em termos de design, especialmente para a costura doméstica ou artesanal, e poucas máscaras comerciais têm quatro camadas. Para costurar uma máscara de quatro camadas, a costura pode ter que passar por oito camadas de material depois de virar as costuras.

Resumimos a função protetora de uma máscara ou material de máscara em termos da porcentagem de pequenas partículas que ela filtra – a eficiência de filtragem. Cada camada extra usada aumenta a eficiência geral de filtragem da máscara, embora não de uma forma simples. Isso foi mostrado pela primeira vez em um ambiente de laboratório em 1919 e confirmado em estudos conduzidos em laboratórios de aerossol em Chicago e do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos durante a atual pandemia.

Enfermeiras trabalhando na pandemia de gripe de 1919 duplicaram suas máscaras usando duas máscaras de gaze de três camadas. Durante o primeiro surto de SARS em 2003, os profissionais de saúde na China fizeram máscaras de doze a dezesseis camadas quando ficaram sem equipamentos de proteção individual certificados. Estudos incluindo pessoas usando essas máscaras sugeriram que elas fornecem proteção para o usuário.

Aumentar a eficiência da filtragem é nosso objetivo, quer estejamos tentando obter o controle da fonte (minha máscara protege você, sua máscara me protege) ou proteção do usuário (minha máscara me protege). A Health Canada(departamento do Governo do Canadá responsável pela saúde pública) recomenda uma camada intermediária de polipropileno (uma resina plástica) nas máscaras para melhorar a eficiência da filtração.

Acreditamos que esse material “não tecido”que pode ser costurado e lavado como um tecido, pode ser uma adição útil. Provavelmente, a melhor maneira de melhorar a eficiência da filtragem das máscaras é adicionar uma camada de polipropileno, seja quando a máscara é feita ou como um filtro lavável entre as camadas das máscaras.

Usar duas dessas máscaras juntas, ou uma máscara de polipropileno com outra mais simples de tecido, é provavelmente uma boa maneira de melhorar ainda mais a filtragem. Você pode até colocar duas máscaras em camadas sem polipropileno e colocar um retângulo de polipropileno entre as máscaras. A tensão da máscara externa irá mantê-la no lugar.

As máscaras de tecido não padronizadas que compramos, fabricamos ou recebemos, embora sejam imperfeitas e variadas, estão se mostrando eficazes na redução da transmissão na pandemia. Estudos sobre obrigatoriedade de uso de máscara nos Estados Unidos, Canadá e Alemanha, e comparações entre países, todos mostram consistentemente reduções associadas na transmissão quando as máscaras são usadas.

Melhorar ainda mais a filtração também é provável que valha a pena: estudos de modelagem mostram que melhorar a filtração reduz a transmissão da Covid-19. Adicionar camadas por máscara dupla é uma forma de usar as máscaras que já temos, possivelmente para um efeito melhor. 

Respirar é preciso

Há uma advertência importante. Cada camada adicionada também afeta a respirabilidade, ou a sensação de usar a máscara em termos de esforço respiratório. Isso é importante para o conforto e ajuda a manter a máscara segura para o usuário. Se você sentir falta de ar em uma máscara dupla, pode ser que existam muitas camadas para você. Se você estiver se exercitando com uma máscara dupla, fique alerta para a sensação de falta de ar e monitore como é; não se esforce mais do que normalmente faria.

O outro problema com as camadas extras é que, quando a respirabilidade diminui, isso significa que a resistência da máscara à passagem de ar aumentou. Isso aumenta a pressão dentro da máscara e pode causar vazamento ao redor da borda. Às vezes, a máscara dupla, com dois conjuntos de fechos de cabeça, contorna esse problema porque o ajuste ao rosto é mais confortável e é mantido no lugar por mais pontos.

Mas haverá uma diminuição dos retornos se a respirabilidade for tão ruim que haja um fluxo de ar significativo ao redor das bordas da máscara. O objetivo é minimizar esse ar completamente não filtrado. Você pode ficar atento a isso ao adicionar a segunda máscara – a quantidade de vazamento é menor ou maior do que quando você usava uma das máscaras sozinha? E você consegue respirar com conforto suficiente para a tarefa que está planejando?

No Centro de Excelência em Equipamentos e Materiais de Proteção da McMaster, nosso grupo está trabalhando com fabricantes de máscaras comerciais, especialistas em têxteis, fabricantes de colchas e outros costureiros domésticos para criar designs alternativos para máscaras e testá-los em laboratório. Até que esses estudos sejam feitos, o duplo mascaramento é uma inovação criativa que vale a pena experimentar com as máscaras que você tem.

*Catherine Clase é epidemiologista e professora da Universidade McMaster (Hamilton, Canadá); Charles-Francois de Lannoy é professor de Engenharia Química da Universidade McMaster; Juan Jesus Carrero é professor de Epidemiologia do Karolinska Institutet (Solna, Suécia); Roberto Pecoits-Filho é professor titular da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); Scott Laengert é químico e faz doutorado em Engenharia Química na Universidade McMaster

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.