Marisa já sabia que eu não queria o apartamento, diz Lula sobre o triplex

Marisa já sabia que eu não queria o apartamento, diz Lula sobre o triplex

Ex-presidente disse ao juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, que 'nem sempre elas perguntam para a gente o que vão fazer'

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Fausto Macedo, Luiz Vassallo e Bruno Ribeiro

10 de maio de 2017 | 21h27

Lula. Foto: Reprodução

O ex-presidente Lula declarou ao juiz federal Sérgio Moro que a ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em fevereiro deste ano) ‘sabia’ que ele não queria o triplex 164-A no Guarujá (SP). O imóvel é alvo da ação penal na qual o petista é réu por corrupção e lavagem de dinheiro.

Moro questionou Lula sobre uma visita ao imóvel. “Então aquela visita, em agosto de 2014, só para eu entender, já não lhe dizia respeito? A visita que a senhora sua esposa teria feito.”

“Eu nem sabia que tinha tido a visita, doutor. Nem sempre elas perguntam para a gente o que vão fazer.”

O juiz insistiu: “Mas ela também não te relatou em seguida?”.

“Dez dias depois, ou 15 dias, ela me relatou”, respondeu Lula. “Ela disse que não teria gostado. Ela já sabia que eu não queria o apartamento. Não sei se o senhor percebeu que o apartamento foi comprado no nome da Dona Marisa.”

A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que Lula recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira por meio do triplex 164-A no Edifício Solaris, no Guarujá (SP), e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantido pela Granero de 2011 a 2016. O petista é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.

Moro aceitou a denúncia em 20 de setembro de 2016.

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

Dona Marisa. Lula disse que é “muito difícil” para ele ouvir o nome da mulher, morta em fevereiro, de 2014, após ser vítima de um acidente vascular cerebral.

“Só queria pedir uma coisa doutor Moro. É muito difícil para mim toda hora que o senhor cita a minha mulher, sem ela estar aqui para se defender. É muito difícil.”

“Não, eu não estou acusando ela de nada senhor ex-presidente”, disse Moro.

“Eu sei que o senhor não está acusando, mas é que o senhor perguntas coisas… se eu vi, se eu não vi.”

“É que o documento está assinado por ela, então infelizmente…”, explicou o juiz.

“É uma pena que… e uma das causas que ela morreu, foi a pressão que ela sofreu, então eu não quero nem discutir. Quando se tratar dela, eu gostaria que o senhor…”

Triplex. O Edifício Solaris era da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), a cooperativa fundada nos anos 1990 por um núcleo do PT. Em dificuldade financeira, a Bancoop repassou para a OAS empreendimentos inacabados, o que provocou a revolta de milhares de cooperados. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi presidente da Bancoop.

A ex-primeira-dama Marisa Letícia (morta em 2017) assinou Termo de Adesão e Compromisso de Participação com a Bancoop e adquiriu ‘uma cota-parte para a implantação do empreendimento então denominado Mar Cantábrico’, atual Solaris, em abril de 2005.

Em 2009, a Bancoop repassou o empreendimento à OAS e deu duas opções aos cooperados: solicitar a devolução dos recursos financeiros integralizados no empreendimento ou adquirir uma unidade da OAS, por um valor pré-estabelecido, utilizando, como parte do pagamento, o valor já pago à Cooperativa.

Segundo a defesa de Lula, a ex-primeira-dama não exerceu a opção de compra após a OAS assumir o imóvel. Em 2015, Marisa Letícia pediu a restituição dos valores colocados no empreendimento.

Bens. A Lava Jato afirma que a OAS pagou durante cinco anos pelo aluguel de dez guarda-móveis usados para armazenar parte da mudança do ex-presidente Lula quando o petista deixou o Palácio do Planalto no segundo mandato. A empreiteira desembolsou entre janeiro de 2011 a janeiro de 2016, R$ 1,3 milhão pelos contêineres, ao custo mensal de R$ 22.536,84 cada.

Toda negociação com a transportadora Granero teria sido intermediada pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, que indicou a OAS como pagante com o argumento de que a empreiteira é uma “apoiadora do Instituto Lula.” Para investigadores da Lava Jato, os fatos demonstram “fortes indícios de pagamentos dissimulados” pela OAS em favor de Lula. Isso porque o contrato se destinava a “armazenagem de materiais de escritório e mobiliário corporativo de propriedade da construtora OAS Ltda”, mas na verdade os guarda-móveis atendiam a Lula.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.