Maria Lúcia, a secretária que fez o império Odebrecht se render

Maria Lúcia, a secretária que fez o império Odebrecht se render

De datilógrafa a distribuidora de 'acarajés', ela virou a testemunha bomba da Operação Xepa, que culminou com a decisão do alto escalão da maior empreiteira do País em buscar a delação premiada

Fausto Macedo, Julia Affonso, Ricardo Brandt e Mateus Coutinho

23 de março de 2016 | 16h53

Maria Lúcia Tavares foi presa na 23ª fase da Lava Jato. Foto: Geraldo Bubniak/AGB - 16/05/2014

Maria Lúcia Tavares foi presa na 23ª fase da Lava Jato. Foto: Geraldo Bubniak/AGB – 16/05/2014

Ela chegou à Odebrecht no distante 1977 como datilógrafa no escritório de Salvador da maior empreiteira do País, então sob o regime de exceção dos generais. No início trabalhava na área de concorrência, depois migrou para o setor jurídico já como secretária, representando o grupo em demandas trabalhistas. Ganhou a confiança dos superiores e logo assumiu posto em uma área sensível, o setor financeiro. Quase quarenta anos depois, Maria Lúcia Guimarães Tavares é testemunha bomba da Operação Xepa, 26.ª fase da Lava Jato, que culminou com a decisão do alto escalão da Odebrecht de fazer delação premiada.

Capturada em fevereiro na Operação Acarajé, Maria Lúcia fez acordo com a força-tarefa do Ministério Público Federal. Em troca da liberdade e de um possível perdão judicial, relatou aos investigadores o passo a passo de uma vida dedicada à empreiteira e também a rigorosa rotina das propinas para diretores de estatais, agentes públicos e políticos.

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As revelações de Maria Lúcia atingiram o coração da gigante da construção civil que teve seu presidente Marcelo Bahia Odebrecht e outros executivos aprisionados na Operação Erga Omnes, desencadeada em 19 de junho de 2015. Desde então, a Odebrecht resistia a ferro e fogo à estratégia de colaborar com as investigações, seguindo a tese da negativa de autoria dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

A blindagem ruiu nesta terça-feira, 22, quando a Polícia Federal deflagrou a Xepa, amparada nos depoimentos de Maria Lúcia – o golpe derradeiro para fazer a empreiteira seguir o atalho dos executivos das outras empresas do setor que contaram parte do que sabem para se livrar do cárcere e do juiz Sérgio Moro.

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Em nota intitulada ‘Compromisso com o Brasil’, a Odebrecht se curvou, nesta terça, 22. “As avaliações e reflexões levadas a efeito por nossos acionistas e executivos levaram a Odebrecht a decidir por uma colaboração definitiva com as investigações da Operação Lava Jato”, diz o texto.

A sequência explosiva de dez depoimentos da secretária indicou que a Odebrecht mantinha um setor profissionalmente organizado para pagamentos de propina. Maria Lúcia era uma das funcionárias da área, denominada Setor de Operações Estruturadas, onde ingressou há seis anos.

Até chegar ao setor, Maria Lúcia passou pela área de concorrência. Foram dois anos. Depois, foi para jurídico, exercendo o cargo de secretária e, posteriormente, como secretária e preposta, nas audiências trabalhistas. Ficou cerca de onze anos no jurídico. Depois, realocada para o financeiro, em um departamento chamado Diplan, de contabilidade.

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Todos os postos que ocupou ficam em Salvador. Na contabilidade fazia relatórios de auditores que inspecionavam as obras. Seu chefe era Antônio Ferreira. Golpeado por um derrame, Ferreira foi afastado e saiu da empresa. Por isso, há seis anos, Maria Lúcia foi transferida para o setor de Operações Estruturadas. Ali, seu chefe era Hilberto Silva.

“A equipe no Setor de Operações Estruturadas era liderada por Hilberto Silva. O setor se dividia entre São Paulo e Salvador.”Também compunham a equipe Luiz Eduardo Soares e Fernando Migliaccio, ambos trabalhando em São Paulo, com o apoio da secretária Alyne Borazo.”

A fase Acarajé da Lava Jato descobriu Maria Lúcia. A interceptação de-mails de executivos da Odebrecht a ela encomendando os famosos quitutes baianos para ‘entrega’ em endereços de São Paulo e Rio foi a pista. Os investigadores suspeitaram que ‘acarajé’ era a forma cifrada que a empreiteira usava para tratar do repasse de propinas em dinheiro vivo.

Interrogada, a secretária confirmou. Depois, abriu os arquivos secretos do dinheiro ilícito distribuído para agentes públicos, ex-dirigentes da Petrobrás e políticos.

Maria Lúcia fez nascer a Xepa, que levou à rendição da maior empreiteira.

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