Marcha da insensatez em tempos de pandemia

Marcha da insensatez em tempos de pandemia

Lições da economia comportamental para o caso brasileiro

Roberta Muramatsu e Ana Maria Bianchi*

01 de junho de 2020 | 07h00

Roberta Muramatsu. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na última terça feira, 26 de maio de 2020, o Estadão publicou três artigos na sua página Notas e Informações, intitulados “Nascidos um para o outro”, “Às escâncaras” e “As consequências da crise”. Todos eles estão bem alinhados com a visão da historiadora Barbara Tuchman acerca da “marcha da insensatez” na seara política. Apesar de a autora ter como foco decisões equivocadas feitas por governos em períodos como o da Guerra de Tróia, Reforma Protestante, Independência dos Estados Unidos e Guerra do Vietnã, a análise parece aplicável aos desafios atuais.

Segundo Tuchman, há quatro fundamentos do desgoverno: a tirania, a ambição exacerbada, a incompetência e a insensatez. Apesar de tais elementos serem intimamente conectados, a autora dá destaque à política da insensatez, uma manifestação do auto-engano que exerce grande papel na tomada de decisão dos governantes.

A que vêm essas reflexões? Embora várias pesquisas apontem a ineficácia da cloroquina e seus derivados no tratamento da covid-19, bem como seus efeitos secundários indesejáveis, Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, continuam a defender e estimular sua aplicação em larga escala. Nesse contexto, a economia comportamental (agenda de pesquisa que integra economia, psicologia e sociologia) ajuda a explicar o que leva as autoridades políticas a agirem de maneira contrária à razão. As posições arraigadas sobre o uso dessa terapia parecem ser um caso exemplar do viés de excesso de confiança, por sua vez associado ao viés de confirmação.

Para os que não estão familiarizados com a nomenclatura, o viés de confirmação remete a questões como: “Você sabe o que você sabe? E sabe também do que não sabe?”. Ele define a tendência humana de privilegiar informações que ratifiquem crenças previamente estabelecidas. Ao incorrer nesse viés, a pessoa tende a reunir informações de modo seletivo, desprezando aquelas que refutariam suas próprias convicções. No caso do excesso de confiança, o indivíduo tem uma percepção exagerada de suas competências ou habilidades, de forma incompatível com a real dimensão das mesmas. Várias pesquisas recentes revelam que as pessoas superestimam sua habilidade ao volante, suas condições de saúde e seu desempenho escolar, julgando-se melhores do que efetivamente são em cada um desses domínios.

No caso concreto em análise, é importante qualificar essa variante (digamos assim) do viés de excesso de confiança. Embora não haja consenso, muitos pesquisadores da área médica vêm questionando a eficácia da cloroquina no tratamento da covid-19. É verdade que no início da atual pandemia não existia uma terapêutica consagrada para a doença, como, de resto, não existe até hoje. Diante da urgência e gravidade do quadro, é compreensível que se tenha adotado uma medicação que acenava com bons resultados. Mas o avanço da pesquisa, em diferentes partes do mundo, tem sistematicamente refutado a tese de que a adoção da cloroquina e seus derivados, combinados ou não a outros medicamentos, seja de fato a solução para o problema. Tais pesquisas são em sua maioria de natureza experimental e seguem os protocolos da ciência, afastando-se, portanto, do mero estudo de casos da prática médica.

Tem-se aqui um exemplo perfeito de falseamento de hipótese, no sentido que o consagrado filósofo da ciência contemporâneo, Karl Popper, emprestou ao termo. Segundo Popper, todas as teorias científicas devem ser refutáveis. Uma teoria não pode ser considerada verdadeira porque sua hipótese obteve um resultado positivo no teste empírico, em Rouen ou qualquer outro lugar do mundo, pois sempre existirá uma teoria alternativa cujo teste levaria ao mesmo resultado. Mas – e esse é o ponto importante – as teorias deverão ser descartadas quando os resultados que preveem não forem empiricamente observados.

Para voltar à atitude dos governantes que apregoam a disseminação do uso de cloroquina, suas ações revelam um excesso de confiança bastante peculiar, pois parecem acreditar mais em sua opinião leiga do que nas descobertas da medicina. É certo que não estão sozinhos nessa prática, mas as consequências de seus atos estendem-se mais amplamente do que as do cidadão comum. Os humanos, todos, padecem desse viés: como lidam mal com a ambiguidade, sobretudo quando se veem em um contexto de perda, tendem a apegar-se a suas crenças e a superestimar as chances de sucesso das práticas que decorrem das mesmas, apelando sem maior reflexão às “evidências” que dão suporte a tal atitude. A comparação com Sganarelle, o médico charlatão da comédia de Molière, é irresistível.

Se é verdade que a medicina não foi ainda capaz de encontrar um tratamento eficaz para a covid-19, o fato de se colocar sob suspeita a terapêutica que vinha sendo preconizada deve ser considerado um avanço. Este não é o caminho, dizem os especialistas, e as bulas de remédio devem advertir o paciente sobre seus possíveis efeitos secundários indesejáveis. Em poucas palavras, a terapêutica não merece uma confiança cega e, principalmente, sua adoção como política de saúde pública é desaconselhável.

O viés de excesso de confiança é apenas um dos fatores que configuram a situação atual e provocam a marcha da insensatez. Várias outras condições, inclusive vieses comportamentais, podem ajudar a explicar esse movimento. Um deles é o viés da disponibilidade, em que o caso que mais facilmente vem à mente é tomado como paradigmático: O famoso Dr. Fulano de Tal tomou cloroquina e se curou, logo, a cloroquina cura. Existe também a falácia dos custos irrecuperáveis (sunkcosts): como já investimos recursos (dinheiro, tempo, energia) em determinada solução, fiquemos com ela a despeito das evidências contrárias. Ou, como bem disse Tuchman em seu interessante livro A Marcha da Insensatez, “Uma vez que a política foi adotada e implementada, toda a atividade subsequente transforma-se em um esforço para justificá-la”. A despeito da complexidade da atual pandemia, ter consciência desses vieses e encará-los de forma crítica deverá fundamentar melhores escolhas políticas.

Que nossos homens públicos se disponham a conviver com o contraditório, e ajam para fomentar instituições capazes de criar freios e contrapesos, para que seus julgamentos e decisões estejam alinhados com os valores da razão, eficiência, liberdade e justiça. Do contrário, corremos o risco de reproduzir, dois séculos depois, o triste quadro que John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos, retratou em carta dirigida a Thomas Jefferson, seu sucessor, em 9 de julho de 1813: “Enquanto todas as ciências têm avançado, a do Governo está parada; pouca coisa melhor compreendida; pouca coisa melhor praticada agora do que há três ou quatro mil anos atrás (tradução livre).”

*Roberta Muramatsu é pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie

*Ana Maria Bianchi é professora titular da FEA-USP

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.