Marcelo Odebrecht decodifica agenda com Mantega para a Lava Jato

Marcelo Odebrecht decodifica agenda com Mantega para a Lava Jato

Empreiteiro revelou aos investigadores o significado de seus pleitos perante o ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma

Julia Affonso e Ricardo Brandt

06 Agosto 2017 | 06h25

Marcelo Odebrecht em Curitiba, em setembro de 2015. FOTO: Rodolfo Buhrer/REUTERS

O empreiteiro Marcelo Odebrecht, preso da Lava Jato desde junho de 2015, ‘desvendou’ parte de sua agenda demandas com o ex-ministro Guido Mantega (Planejamento e Fazenda/Governos Lula e Dilma) para a Operação Lava Jato. O Ministério Público Federal anexou 38 documentos à ação penal que acusa o ex-presidente Lula de propinas da Odebrecht nesta quinta-feira, 3. Na lista está a tabela com as explicações do empresário.

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“Trata-se de elementos de corroboração apresentados por executivos do Grupo Odebrecht no bojo de seus acordos de colaboração, remetidos a esse d. Juízo Federal pelo E. Supremo Tribunal Federal, e que são pertinentes ao objeto desta ação penal”, informou a Procuradoria da República, no Paraná, ao enviar os 38 documentos ao juiz federal Sérgio Moro.

A tabela do empreiteiro conta 36 tópicos e três colunas identificadas por ‘item da agenda de Marcelo Odebrecht com Guido Mantega’, ‘explicação do pleito’ e ‘o pleito foi atendido?’. Neste último quesito, as repostas possíveis eram ‘sim’, ‘não’, ‘parcial’ e ‘n/a’.

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Um item é ‘Ingressos Itaquera’. O executivo afirmou que se tratava de ‘um pedido pessoal de Guido Mantega’ para obter ingressos para a abertura da Copa do Mundo, em 2014, e ‘para mais algum jogo na Arena Itaquera’. “Não me recordo especificamente qual jogo”.

No relato de Odebrecht a resposta foi ‘sim’ para um item: ‘Prosub?’. Marcelo Odebrecht explicou. “Sempre o que era pedido era Orçamento, Orçamento, Orçamento. A única conversa que tinha, mas sempre tinha que reforçar.”

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O Prosub é o Programa de Desenvolvimento de Submarino. O projeto de submarinos – quatro convencionais e um nuclear -, orçado inicialmente em 6,7 bilhões de euros, só saiu do papel após parceria com a França.

O programa foi entregue a um consórcio formado pela Odebrecht, pelo estaleiro francês DCNS, cujo principal acionista é o governo da França, e a Marinha brasileira. Segundo os delatores da Odebrecht houve acerto de EUR 40 milhões ao lobista José Amaro Pinto Ramos, que representava a DNSC, de EUR 1,5 milhão e R$ 1,2 milhão para o ex-presidente da Eletronuclear Othon Luis Pinheiro da Silva e de R$ 50 milhões para o PT.

A Olimpíada do Rio está na tabela como ‘Financ PO vs custo’ e atendimento ‘parcial’.

“Tratava-se do financiamento para as Olimpíadas do Rio de Janeiro. O financiamento do Parque Olímpico e da Vila do Atletas fez parte de minhas agendas tanto com Mantega como com Dilma. As evoluções desses financiamentos ao longo do tempo estão nas minhas agendas, notas e em anexos que levava para eles. Ao final esses financiamentos acabaram sendo contratados com atrasos e condições diversas do que pleiteávamos”, explicou Odebrecht.

O item ‘LC Angola’ também teve atendimento ‘parcial’. “Apesar de não ser um assunto diretamente ligado a nós, pois dizia respeito a dois Governos, toda vez que havia essa negociação de linha de crédito de Angola MO fazia um “lobby” junto a Guido Mantega para que este desse “uma forcinha”. Como essas discussões demoravam semanas e meses, nós acompanhávamos as reações do Governo e dos ministérios correspondentes sobre o assunto. Os resultados das negociações ficavam, via de regra aquém do esperado”, relatou o empreiteiro.

A planilha de Odebrecht cita ainda “613 vs custo congresso”. Marcelo Odebrecht afirmou que o pleito sobre a Medida Provisória 613/2013 (Reiq) foi parcialmente atendido. Essa medida provisória concedia incentivos tributários a empresas químicas e interessava à Braskem, uma das empresas do Grupo Odebrecht.

“Guido Mantega acabou deixando ‘muita coisa’ para ser resolvida no Congresso. Por isso, reclamei com Guido Mantega que o custo da nossa ‘atuação’ no Congresso acabaria tendo um custo”, relatou.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FÁBIO TOFIC, DEFENSOR DE MANTEGA

A reportagem tentou contato com o criminalista Fábio Tofic Simantob, defensor do ex-ministro Guido Mantega. O espaço está aberto para manifestação.

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