Maravilhosamente náufraga!

Maravilhosamente náufraga!

José Renato Nalini*

01 de maio de 2022 | 18h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Não é novidade que o nível do mar aumenta rapidamente. O aquecimento global causa degelo assombroso e aquilo que se vaticinava para dentro de um século, acontece hoje, sob nossa vista.

Recente artigo de Fernando Reinach – “Cidades que afundam” – Estadão de 9.4.22, faz pensar. Não é novidade que o nível do mar está subindo. “A novidade é que grandes cidades à beira-mar estão afundando em um ritmo que pode ser até quinze vezes mais rápido que a velocidade da subida do mar. Essa combinação desses dois fenômenos vai fazer com que áreas nessas cidades sejam invadidas pelos oceanos muito antes do que se imaginava. O Rio de Janeiro está na lista”.

Pensar que a “Cidade Maravilhosa” naufragará é melancólico. Há dias, veiculou-se a notícia de que pesquisadores que acompanhavam o ritmo do degelo na Antártida, apavorados com a celeridade do derretimento das geleiras, resolveram deixar a pesquisa de lado e sair pelo mundo, alertando a humanidade inerte e imersa em questões corriqueiras.

O aquecimento global é algo que preocupa o mundo civilizado e, ao que parece, não incomoda o Brasil. Será que o negacionismo obscurantista em que boa parte dos brasileiros imergiu acredita que “Deus é brasileiro” e que não deixará que o pior aconteça com nossos quase dez mil quilômetros de orla?

Os cientistas mencionados por Reinach utilizam radares para acompanhar o que acontece com noventa e nove cidades localizadas à beira-mar em todo o planeta. Os dados coletados entre 2014 e 2021 mostram que trinta e três delas afundam com velocidades maiores que dez milímetros por ano, cinco vezes mais rápido do que a velocidade de subida do oceano. Rio de Janeiro é uma delas.

Não é a única. Tianjin, Semarang e Jacarta afundam ainda mais rapidamente. Uma causa concorrente para o afundamento acelerado é a extração de água doce por meio de poços artesianos, para uso das cidades que já não possuem líquido utilizável, pois poluíram seus rios, agora dependem dos aquíferos.

Quando se pensa no naufrágio do Rio de Janeiro, não se pode deixar de imaginar que o mesmo acontecerá com a faixa litorânea mais linda do mundo, exatamente aquela cortada pela Rio-Santos. O Rio não vai afundar sozinho. Vai levar Angra dos Reis, Parati, Ubatuba e suas cento e setenta e três praias, Caraguatatuba, São Sebastião… Ilhabela submergirá?

E quem garante que não acontecerá o mesmo com Bertioga, Guarujá, Santos, Peruíbe, Itanhaém?

É bom pensar no realocamento dessas cidades. Perderemos praias. Ficaremos com o litoral de penhascos. Os edifícios servirão de criadouro para corais? Ou alguém acredita que a humanidade – não mais que de repente – acordará e assumirá uma postura radical e corajosa: parar de emitir gás carbônico, reflorestar, recuperar nascentes. Consumir menos, descartar menos, adotar – até às últimas consequências – o conceito e a prática da economia circular.

Gostaria de confiar nesta última hipótese. Mas os sintomas de violento retrocesso em todas as áreas, notadamente aquela que guarda pertinência com ética, a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade, sou cético. Até realista demais. Não vejo perspectiva de súbita conversão. Ao contrário: vejo prosperar o negacionismo, o terraplanismo, o deboche em relação à política ecológica, a cupidez e a ganância na célere exaustão da terra e na eliminação inclemente da biodiversidade.

Satisfeito com a condição de fornecedor de comodities para alimentar animais dos países ricos, o Brasil sequer cogita em recuperar os desertos fabricados pela exploração insana do solo, o que seria suficiente para alimentar o gado mundial sem a derrubada de uma única árvore. Continua a desmatar, a incendiar, a fabricar desertos e a investir na criação de bovinos. Já pode ostentar um privilegiado lugar no ranking planetário: possuímos mais cabeças de gado do que seres humanos! Que orgulho!

Sou obrigado a concluir como Reinach: ‘Eu, que sempre vi a subida dos oceanos como um problema para as próximas gerações, estou começando a me convencer que vou ver a água chegar mesmo que seja somente em dias de grandes tempestades. E você, caro leitor, se for investir em imóveis nessas áreas, é bom ter isso em mente”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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