Maranduba nas Américas

Maranduba nas Américas

Ademir Furtado*

18 de novembro de 2020 | 06h45

Ademir Furtado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Todos os povos gostam de eternizar as façanhas de seus heróis. A literatura, ponto mais alto da evolução do espírito humano, se alimentou desde o começo dos grandes feitos dos homens que pretendiam fazer par com os deuses. O grande Homero é o nosso primeiro modelo. As guerras são o ambiente privilegiado para os homens intrépidos mostrarem seu valor.

Nos tempos modernos, assim de memória, lembro-me de As Aventuras do Bom Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, ele próprio um ex-combatente na primeira Guerra Mundial nas tropas do que hoje se chama Re pública Tcheca. Também merece uma menção A Vida e as Extraordinárias Aventuras do soldado Ivan Chonkin, de Vladimir Voinovich, com as escaramuças do impagável soldado do título, no exército de Stalin. São relatos de heróis que arriscaram a vida para lutar pela pátria, entidade sagrada que justifica qualquer sacrifício. Nem vou me referir à Eneida, de Virgílio, nem ao Guerra e Paz, do Tolstoi, grandiosos épicos que qualquer amante da literatura conhece muito bem. Também deixarei de lado a contribuição do cinema com, por exemplo, O Incrível Exército de Brancaleone, um típico cavaleiro medieval que resolve embarcar na onda das Cruzadas para defender a Terra Santa. Todas essas obras mostram ao mundo a grandeza de caráter de quem se dedica de corpo e alma a uma causa nobre. Testemunhos fidedign os da in sígnia de bravura e da índole marcial dos homens, cujas peripécias são motivadas por augustos sentimentos de honra e orgulho.

Mas eu não quero falar dessas fantasias poéticas. Aqui eu me ponho ao lado de Camões e peço às musas que silenciem esses relatos de tempos imemoriais, frutos apenas do desejo de enfeitar os acontecimentos. Rogo que esses seres divinos atentem para outra guerra que está para acontecer, e inspirem a este humilde bardo um pouco de engenho e arte para cantar um valor mais alto que ora se levanta. É preciso muito talento para celebrar com o devido tirocínio a maior de todas as guerras, a apoteose da arte bélica, da ciência do combate, da inteligência belicista. Refiro-me ao iminente conflito entre Brasil e Estados Unidos, evento que certamente atingirá dimensões tão extraordinárias que até hoje ninguém s e atreve u a sequer imaginar. Eu falei ninguém? Enganei-me. O nosso presidente da república não só é capaz de conceber semelhante hecatombe como já deu o primeiro passo para colocar todos os patriotas em estado de vigília para a monumental procela.

O que causou tensão internacional foi a suposta escolha de Joe Biden para presidente dos nossos amigos americanos. Dissemos suposta porque o atual presidente é nosso amigo e jamais seria derrotado na preferência popular. Ele próprio vive falando isso.

Infelizmente, as democracias ainda sofrem de uma deficiência congênita que até hoje país nenhum conseguiu corrigir: a necessidade de eleições periódicas. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos há poucos dias. Como lá eles não alimentam o hábito de colocar na cadeia o candidato favorito nas pesquisas de intenção de votos, todos puderam concorrer inclusive um com tendências socialistas que, para desespero dos cidadãos de bem, foi o eleito. Isso é o que deixou nosso presidente em estado de alerta. Ele que já havia ensaiado uma invasão na Venezuela e mandado indiretas para a Argentina.

Mas o tiro de alerta foi dado quando o presidente eleito americano ousou fazer referências à Amazônia, numa insinuação de que ele poderia tomar algumas providências se continuassem as queimadas e os desmatamentos ilegais. Foi o mesmo que riscar um fósforo num barril de pólvora. Nosso presidente perdeu de vez a paciência com tamanho atrevimento e usou justamente a imagem da pólvora para mandar um recado. E não é de causar surpresa a ninguém. O grande arauto da Democracia e das liberdades individuais, o nosso digno mandatário federal, não poderia sofrer calado a ameaça comunista no país vizinho. Digo vizinho porque as afinidades entre os dois presidentes em exercício são tão harmonio sas que eles, e nós também, até esquecem que há nações separando os dois limites geográficos. O amor entre os dois presidentes atuais é tão irrestrito que os dois povos quase se confundem, principalmente quando os daqui vão para lá. Explicando melhor, os daqui que vão para lá pensam que são de lá, mas os de lá, quando recebem os daqui, sabem que os visitantes não são de lá. Apenas jogo de palavras que não traduz os verdadeiros sentimentos de apreço e admiração. Pelo menos dos daqui pelos de lá.

Voltando ao assunto, a primeira reação do nosso grande líder só poderia ser uma. Quem esse Biden pensa que é? Logo ele que ascendeu à cena política numa eleição altamente suspeita, posta em dúvida inclusive pelo chanceler brasileiro, autoridade máxima nas relações exteriores do Brasil. Esse novo presidente americano não sabe com quem está se metendo. Tivesse ele visto o treinamento do nosso exército pintando o meio-fio das calçadas nas cidades, ou o destemor com que nossos temerários guerreiros enfrentam qualquer tipo de perigo quando se embrenham no interior do Brasil para asfaltar estradas federais. Ele pensa que somos um país de maricas? Esse novo presidente mequetrefe, que usou d e fraude para se apoderar da Casa Branca, o templo sagrado de nossos irmãos americanos, não consegue imaginar a coragem, a fúria, a determinação com que os nossos aguerridos soldados se bateram, anos atrás, contra uma das maiores pragas da raça humana depois do comunismo: o mosquito da dengue. Aqui estamos todos vacinados contra o vírus da covardia e do medo. E agora esse inimigo dos valores mais sagrados da família cristã e do patriotismo vem querer se meter nas nossas florestas, de onde os trabalhadores das madeireiras tiram seu sustento? Isso nunca. Nem vale a pena gastar saliva sobre esse assunto.

A Amazônia é dos brasileiros e dos amigos dos brasileiros, como as madeireiras e os plantadores de soja, nunca, jamais dos comunistas. Nosso glorioso exército estará sempre em prontidão para reprimir os malfeitores que sujam as calçadas; impávido na determinação de promover o progresso e a integração das várias e longínquas regiões deste imenso Brasil, pavimentando estradas e, em hipótese alguma, permitirá ousadias e desaforos de qualquer aventureiro.

O Brasil e suas riquezas estão acima de tudo, e o nosso presidente, depois dessa demonstração inquestionável de valentia, temperamento belipotente e profundo conhecimento de estratégia militar, uma reencarnação de Napoleão, um homem com perfil inconfundível de atleta, que enfrenta qualquer tempestade, real ou figurada, estará, como um deus, sempre acima de todos.

*Ademir Furtado é graduado em Letras pela UFRGS, escritor, autor dos romances Se eu olhar pra trás (Editora Dublinense) e O conto do anu (Editora Age)

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