Maradona morreu… há muito tempo

Maradona morreu… há muito tempo

Harley Wanzeller*

28 de novembro de 2020 | 17h25

Harley Wanzeller. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Diego Maradona foi um exemplo!

Em regra, quando alguém falece, somos tomados por um sentimento de nostalgia que busca na personalidade de quem se foi algo que convencionamos definir como legado. Passamos a ter a nítida sensação de que aquele corpo inanimado estendido diante de nós tem uma enorme capacidade para ressaltar o bem praticado em vida, suavizando até mesmo figuras facínoras, bandidas e mendigas espirituais. Nestes momentos, o sentimento dos vivos passa a ser complacente, benévolo, numa tentativa frenética de extrair de todos o que há (ou o que houve) de melhor.

Não foi diferente comigo. Assim que soube do falecimento de Maradona, me veio a lembrança da vida e história de Ayrton Senna, em especial o dia de sua morte.

Muitos que agora leem não souberam o gosto de correr para uma TV na manhã de domingo, em uma época onde os heróis não estavam no YouTube ou pulando feito micos amestrados no Tik-Tok. Naquela época, a Fórmula 1 tinha muita graça quando a chuva vinha para pista, e um único piloto dava o “ar da sua graça”.

Engana-se quem pensa que só os brasileiros pensam assim. Não mesmo! Qualquer ser humano que minimamente sabe o que é este esporte, e ao menos já consiga enxergar em seus cabelos o charme do tom da idade, sabe bem sobre o sentimento que estou falando.

Quando Ayrton Senna faleceu, eu tinha 14 anos. Recebi a notícia sem qualquer exagero, mas com a mesma importância com que o mundo a recebeu – com um estrondoso “não é verdade”. Naquele mesmo ano, tive a oportunidade de visitar o principado de Mônaco e ver, com meus próprios olhos, o tamanho de Senna quando um vendedor de souvenir chorou ao falar dele para puxar assunto com os turistas brasileiros. A cada curva de Mônaco era empregada sua marca. A pista mais tradicional do circuito tinha dono, e ainda tem.

Esse estrondo ecoa na minha cabeça até hoje, passados mais de 26 anos. Digo isto pois  há pouco tempo assisti a um documentário sobre a sua carreira e vida, que se encerrou com o Tema da Vitória. Meus filhos não entenderam bem a minha reação: chorei como se tivesse voltado a 1994, e perdido um ente querido naquele exato momento.

O que fez de Ayrton Senna ser o Ayrton do Brasil?

Passado o tempo, a lembrança de sua vida traz um homem temente a Deus, que encontrava o divino em cada dificuldade que se apresentava – o que é muito difícil, pois em geral nos lembramos de Deus quando nos convém. Não o conheci na vida privada, mas nas manifestações públicas, nunca ouvi Ayrton se colocar em posição de superioridade, ou mesmo transparecer soberba diante de quem perguntava algo. Ao contrário, o via com uma personalidade capaz de transpirar a gentileza de lorde nos momentos de descontração, e a altivez de um sábio guerreiro quando era necessário enfrentar os arroubos do politicamente correto, como na célebre entrevista concedida a Jackie Stewart (1), ou quando teve que enfrentar as injustiças impostas pelo sistema (2) em nome da verdade.

Ayrton não nasceu o melhor. Não era o melhor (3). Mas se tornou o melhor piloto de todos os tempos. O que o transformou foi a consciência de que deveria melhorar a cada dia, que deveria entender que nem tudo se entende, que o tempo de Deus deve ser respeitado, e que o trabalho dignifica o homem. Seus sonhos não eram nada pequenos, mas acabaram se convertendo em realidade diante de cada degrau que insistia subir na escada da vida. Quando caia, sabia que não importava o número de quedas, e sim quantas vezes teria forças para se levantar. Honrava sua família, acima de tudo, e substituía a vaidade (presente em todos nós) pela caridade – seja na ajuda material ou no exemplo dado, o qual salvou e ainda salva muitas pessoas. (3)

Em suma, Ayrton não era um santo. Não passava de um pecador que aceitava as circunstâncias impostas, e as vencia. Entendia de suas misérias como ninguém mais, e por isso buscava incessantemente superar-se, evoluindo perante Deus e perante o espelho. Era aquele homem tão capaz de ganhar um grande prêmio com um carro quebrado (4), quanto de parar a corrida no meio para salvar Erik Comas, um  companheiro pouco famoso que precisava sair de seu carro acidentado antes que o pior acontecesse (5). Este era Ayrton. Ou melhor, Ayrton Senna do Brasil, como era conhecido pelo povo.

A esta altura, você, leitor, muito provavelmente já se questionou: o que a vida e o legado de Senna tem a ver com a vida e morte de Maradona?

É verdade. Tenho que dar razão à dúvida. As pessoas e exemplos não se comunicam. São antagônicos.

Mas é a partir daí que tiro as verdadeiras lições sobre a figura de quem hoje tentei falar.

O legado de Maradona é o extremo oposto da virtude. E não digo isso com qualquer desmerecimento ao morto pois ele próprio, Maradona, elegeu os caminhos que o levaram às mortes física e moral, ocorridas muito antes de seu falecimento.

Como um “bom socialista”, Maradona pregava a socialização daquilo que não era seu, torrando o seu dinheiro com drogas e luxos que ele próprio dizia combater. Se vangloriava de trapaças conseguidas dentro das quatro linhas, ensinando aos demais que o certo seria levar vantagem em tudo, a qualquer preço (6). Era um pobre coitado, nada profissional, que colocava todas as suas esperanças no prazer desenfreado, apostando que era o próprio deus encarnado. Se gabava ate mesmo das seitas criadas em torno de seu nome – nada mais apropriado para uma figura tosca e desprezível.

Não nego, com isso, a genialidade do futebolista Maradona. Mas isso não o torna melhor do que realmente foi. Aliás, é essencial que reconheçamos sua genialidade pois, só assim – a partir de exemplos como o dele – é que podemos entender qual o fim de um ser humano que decide, deliberadamente, destruir todos os talentos concedidos por Deus. É a partir dos “Maradonas” da vida que confirmamos Deus nos respeitando em nosso poder de decisão, no exercício do livre arbítrio, da livre consciência e da livre complacência, tão bem abordados por São Bernardo de Claraval.

Não tenho dúvida de que somos livres para fazer o que quisermos. Mas Maradona nos prova que não devemos fazer aquilo que não nos convém, pois a liberdade, quando mal utilizada, direciona o Homem às consequências inarredáveis de suas próprias decisões. E por isto mesmo, creio que será muito lembrado, mas por motivos nada nobres.

Este foi o legado de Diego Armando Maradona, um homem viciado, que tomou a canalhice como estilo de vida e foi incapaz de perceber a própria miséria, se vendo obrigado a viver o ocaso abraçado às consequências de todas as decisões formadoras daquilo que ele próprio passou a ser.

Maradona, enfim, foi um gênio da bola. Isso é inegável.

Mas acima de tudo, foi o pior dos exemplos. E, por isso, será lembrado.

Que Deus tenha misericórdia de sua alma.

*Harley Wanzeller é magistrado federal do TRT-8, cronista e escritor conservador

(1) https://youtu.be/tUmKFS7CrmI

(2) https://youtu.be/-wJdCinpu-4

(3) https://youtu.be/Bf792TmOqDQ

(4) https://youtu.be/M8ip8DlFae0

(5) https://youtu.be/sbTrNKBAfI8

(6) https://youtu.be/XQYTeJzZFAU

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoMaradona

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.