Mãos tecelãs

Mãos tecelãs

Janice Linhares*

28 de junho de 2021 | 13h14

Janice Linhares. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

500 mil!

E todos os dias,

minhas mãos costuram mais um pedaço de pano

a essa mortalha que parece não ter fim… 

Minhas mãos, 

tecelãs por natureza, 

instrumentos perfeitos de semeadura de pão

e de sonhos, 

a cada dia são chamadas a fiar, 

aumentando esse sudário da fina cambraia

que há de agasalhar os milhares de corpos

que tombam cansados e sozinhos… 

Essa mortalha é urdida por todos nós, 

que sós, 

ainda que sem voz, 

continuamos a missão atroz

de unir as pontas desses tempos inflexíveis. 

Na costura de nossas dores, 

sejamos Penélopes

a desmanchar a trama todas as noites, 

na silenciosa espera do retorno do amor. 

Sem voz, 

mas não sem lágrimas; 

sem ar, 

mas não sem coração!

*Janice Vargas de Carvalho Linhares, advogada em MS e servidora pública federal.

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