Mãos dadas na travessia

Mãos dadas na travessia

João Andrade*

12 de fevereiro de 2021 | 03h30

João Andrade. FOTO: DIVULGAÇÃO

O medo do desconhecido faz parte da natureza humana. Está na nossa essência: quando entramos em uma sala escura, com luzes apagadas e janelas fechadas, corpo e mente ficam em estado de alerta. Temos receio de pisar em falso ou de surpreendermo-nos com algo ou alguém estranho. Podemos chamar isso de pavor ou, simplesmente, do bom e velho instinto — sem o qual, imagino, poucos de nós sobreviveríamos em uma densa floresta.

Pois, para muita gente, 2020 foi um ano de breu e incertezas. A pandemia acelerou mudanças e condensou em poucas semanas aquilo que deveria amadurecer por anos. A transformação digital de empresas, negócios e profissões atingiu um espectro jamais visto — que, dificilmente, voltará ao patamar vivido antes. E as pessoas estavam preparadas?

Há quem trilhe esse caminho com convicção e naturalidade. Outros, no entanto, sentem mais dificuldade. Cada qual tem sua história, seu próprio ritmo, suas habilidades e seus pontos a melhorar. Compreender e respeitar esse complexo processo foi — e será, cada vez mais — um desafio gigantesco para os setores de capital humano.

Dois atributos são fundamentais para o sucesso dessa empreitada: empatia e equilíbrio. O primeiro ponto requer das empresas uma visão mais humana do processo — entender que as companhias são feitas de pessoas, e que cada célula desse tecido precisa estar bem e funcionando. O segundo fator é um diferencial cada vez mais raro no ambiente de trabalho: garantir a sintonia entre a saúde emocional, física e profissional dos colaboradores.

Em meio às orientações de isolamento social, é ainda mais difícil que esses aspectos estejam plenamente satisfeitos quando não há proximidade física entre as pessoas. Mas, se 2020 nos ensinou algo, é que a distância não pode ser uma desculpa para não fazer o que precisa ser feito.

Em um cenário tão atípico de pandemia e constantes transformações, as companhias precisam ter proatividade na busca de melhorias nos relacionamentos interpessoais e na solução de conflitos. Aperfeiçoar a comunicação, reduzir ruídos, promover o engajamento, aumentar a motivação e expandir a produtividade do time são alguns dos benefícios disso.

Na Roma Antiga, o filósofo Epíteto apontou que a principal tarefa na vida é saber diferenciar o que está e o que não está sob nosso controle. Pois bem, é claro que uma epidemia de proporções globais que isolou pessoas em suas casas é um fato que foge — e muito — do domínio humano. Mas há atitudes que dependem só de nós. Tenhamos sempre a certeza de que tudo o que está a nosso alcance está sendo feito para melhorar o ambiente de trabalho e a vida dos colaboradores. Realizar essa escura travessia pode dar medo — mas, certamente, ela é mais fácil se estivermos de mãos dadas.

*João Andrade, Chief Human Capital Officer (CHCO) da BriviaDez

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