Mantega sabia de manobra de Joesley para salvar Banco Rural; BC puniu os bancos

Mantega sabia de manobra de Joesley para salvar Banco Rural; BC puniu os bancos

À Procuradoria-Geral da República, o executivo do Grupo JBS relatou diálogo com o então ministro da Fazenda: 'Porra Guido, eu faço o troço pra ajudar lá e agora eu vou entrar no rolo aí e vou ser processado? E eu to com o processo aí'

Eduardo Rodrigues

20 de maio de 2017 | 11h57

Guido Mantega. Foto: Evaristo Sá/AFP

A delação do dono do grupo J&F, Joesley Batista, mostra que o empresário comunicou ao ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega que iria tentar salvar o Banco Rural da falência pela importância que o banco tinha para o PT, desde a época do Mensalão. No fim de 2011, ele usou Banco Original – que pertence aos irmãos Batista – para dar crédito ao Rural, que, por sua vez, já concedia financiamentos a empresas da J&F. Os empréstimos cruzados, no entanto, foram identificados e punidos pelo Banco Central.

“O Banco Rural foi um grande envolvido no Mensalão, e tinha bastante envolvimento com o PT. Esse foi um assunto que eu sempre falava com o Guido, quando o Banco Rural ameaçou quebrar e no final quebrou”, disse Joesley à Procuradoria Geral da República (PGR) no dia 3 de maio deste ano.

De acordo com o empresário, os empréstimos foram tratados no fim de 2011 diretamente com o então vice-presidente do Banco Rural, José Roberto Salgado – condenado a 14 anos e 5 meses no processo do Mensalão, mas já em liberdade desde o fim do ano passado, após cumprimento de um terço da pena.

“Nossas empresas têm longo histórico de operar com o Banco Rural, de mais de 20 anos. E eu conheço o Zé Roberto Salgado há mais de 20 anos também”, afirmou Joesley aos investigadores. “Foi quando liguei pro Zé, e sempre conversando ali com o Guido sobre o assunto do banco. No final eu também tinha interesse pra não deixar o Banco Rural em insolvência e entrar em intervenção”, completou o executivo.

Quando o Banco Central identificou a operação e abriu investigação contra os diretores de ambos os bancos, Joesley chegou a reclamar com Mantega. “Então, depois deu problema e eu fui lá falar com o Guido: Porra Guido, eu faço o troço pra ajudar lá e agora eu vou entrar no rolo aí e vou ser processado? E eu to com o processo aí”, relatou.

Mas, questionado se Mantega atuou para barrar a investigação do BC, Joesley respondeu que o ex-ministro não teve nem tempo para isso. “Quando nós ficamos sabendo, o Banco Central já tinha vindo me multando, enfim”, respondeu o executivo.

Embora reafirme que Mantega sabia desde o começo da operação, Joesley fez questão de frisar a inocência de todos os demais diretores do banco Original que, segundo o executivo, não tinham conhecimento da troca de favores com o Rural. As tratativas teriam sido feitas diretamente por ele, como presidente da holding J&F.

“Tanto é que os diretores que entraram (no processo) já foram absolvidos. Não faziam a menor ideia do que estava acontecendo de um lado e de outro. O link era eu com o Zé Roberto”, alegou. “Só fiz isso aí devido ao contexto petista da situação, porque se o Banco Rural quebrasse, enfim”, concluiu.

O BC instaurou dois procedimentos ainda em 2012, um deles para investigar a atuação do Rural e o outro, do Original. Em agosto de 2013, o Banco Central liquidou o Banco Rural, após as condenações dos seus dirigentes no esquema do Mensalão, alegando que a medida foi tomada por causa do comprometimento da sua situação econômico-financeira e da falta de um plano viável para a recuperação da situação do banco.

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