Manifesto pela coerência

Manifesto pela coerência

Gustavo Alves Magalhães*

13 de abril de 2020 | 10h30

Gustavo Alves Magalhães. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ainda no século XVI, Luís Vaz de Camões teceu algumas linhas sobre a sua visão do desconcerto do mundo. Para o poeta português, “os maus sempre vi nadar/em mar de contentamento”, enquanto que “cuidando alcançar assim/o bem tão mal ordenado,/fui mau, mas fui castigado”.

Tantos séculos depois, com as suas guerras, revoluções e transformações de toda natureza, os desconcertos do mundo ainda existem. E sempre existirão. Curioso, contudo, é o desconcerto que advém da incoerência no agir dos próprios indivíduos, especialmente quando essa incoerência decorre de uma escolha, a da desinformação.

Algumas manifestações relacionadas à pandemia da covid-19 constituem o exemplo mais atual dessa incoerência que permeia determinadas vozes.

Aos alertas e recomendações emitidos pelas autoridades de saúde contrapõem-se manifestações sobre o seu caráter alarmista, histérico e desnecessário. Cria-se um suposto antagonismo entre a defesa da saúde e a preservação da economia, como se ambas não fossem uma só, braços do mesmo corpo. Dividem-se esforços e elegem-se inimigos quando somente a aglutinação de iniciativas é o verdadeiro caminho para uma resposta ágil e eficaz a esse problema.

Nega-se a ciência, refutam-se as evidências, desqualifica-se a técnica. Não porque existem inconsistências ou dúvidas nessas formulações, mas porque, simplesmente, não é isso aí. O que vale é a opinião orientada a partir do achismo. Essa chega a ser matemática, não admite questionamento.

Vive-se um tempo em que a massiva disponibilidade de informações convive, intensamente, com o paradoxo da desinformação. Opta-se pela desinformação não pela impossibilidade de acesso aos fatos, o que é possível, mas, frequentemente, pelo oportunismo que advém de sua escolha.

Vale mais a defesa de uma ideia esparsa, de uma vontade sem lastro, do que o próprio escudo da racionalidade. Esse, por sua vez, somente é buscado quando convém, nos momentos em que a técnica coincide com a idealização. Ou melhor, quando a idealização é confirmada pela técnica.

Falar e defender o óbvio nunca pareceu tão necessário em tempos de incoerência. É preciso que não seja assim. O que deve nortear as ações dos indivíduos em matérias dessa importância não deve ser a conveniência ou a intuição, mas a qualidade da informação e o seu diálogo com as evidências. Somente assim para que as dificuldades constituam pontes, e não muros.

Os reflexos da covid-19 sobre todo o mundo são prova de que as sociedades ainda hoje estão reféns de manifestações da natureza de difícil controle e com profundos impactos. Essas manifestações não terminaram com a Gripe Espanhola, há cerca de um século. Os velhos riscos confluem com os riscos modernos, estando agora potencializados pela globalização.

As empresas de tecnologia já têm se mobilizado para assegurar que as trocas de informações sejam realizadas em atenção a dados técnicos. Recentemente, Facebook, Twitter e Youtube removeram publicações de conteúdo que contrariam fontes oficiais e que podem colocar pessoas em maior risco de transmissão da covid-19, ao passo em que o WhtsApp reduziu a possibilidade de compartilhamento de mensagens para dificultar a disseminação de fake news sobre a pandemia. Trata-se de iniciativas que precisam ser exploradas e desenvolvidas para a elaboração de estratégias de enfrentamento da desinformação.

Inadmissível, contudo, é a desinformação guiar as ações de líderes e seus seguidores em um mundo moderno, especialmente quando isso constitui um ato de incoerência. Esse é um desconcerto do mundo que precisa ser corrigido, tanto para hoje, como para o amanhã.

*Gustavo Alves Magalhães, advogado criminalista. Bacharel e mestrando em Direito Penal pela USP

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