Malheiros, querido Malha

Malheiros, querido Malha

Dora Martins*

23 de março de 2021 | 05h30

Dora Martins. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Estamos todos indignados e entristecidos em meio ao caos governamental e diante das mortes, que deveriam ter sido evitadas,  de centenas de cidadãos e cidadãs brasileiras. E eis que no último dia 18, Antonio Carlos Malheiros, o Malha para muitos, Malheiros para tantos outros, nos deixou.

E ficamos mais tristes.

Quem foi Malheiros, o homem, o cidadão, o juiz?

Pode-se ter certeza até de que Malheiros, nascido em 1951, foi um menino amado e carregado de afeto, emoções essa que bem soube partilhar pela vida que se encerrou faz tão pouco. Ainda é difícil  pensar que Malheiros não está aqui, pronto para dar risada, cuidar dos que pedem ajudam, ou nem pedem, mas ele intui e atende.

Todas as manifestações que sua morte reverberou destacaram sua postura humana. Ele era dessa espécie, algo rara, de gente boa, que carrega o sorriso já no olhar, e tem riso fácil e esperança renhida na humanidade.

Quem com ele desfrutou momentos de vida sabe do prazer que era  estar em sua companhia e desfrutar momentos de alegria e companheirismo. Malheiros era divertido, fagueiro, dava abraços fortes e gostosos.  Tinha aquele talento para ressignificar tantas dores da vida, as que conhecia, humano que era, e as do próximo, para quem sabia sempre ser leve e acolhedor. E sempre com aquele detido olhar e bem escutar para os que mais sofrem na vida.

Fez direito e advogou, como dizia, com entusiasmo. E, ainda jovem advogado especializou-se em direito de família, território de amores e dores, como nenhum outro. E, Malheiros cumpriu vinte anos de advocacia com impar alteridade, sempre sabendo se colocar no lugar do outro, para entendê-lo. Como juiz teve carreira brilhante e era, agora, o segundo mais antigo desembargador do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de S.Paulo.

O Malheiros juiz nunca se apartou do homem cidadão e teve tempo, que bom!, para dedicar-se a tantas outras coisas.

O Malheiros juiz, com sempre uma carga grande de processos não deixava o Malheiros cidadão esmorecer. Assim, ele foi o palhaço Totó, com nariz vermelho, contando histórias e fazendo rir a criançada em tratamento de doenças graves, no hospital Emilio Ribas.

Como obstinado guerreiro em prol dos direitos da Criança e do Adolescentes foi apoiador inconteste da criação da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJSP.

Presidiu a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, na qual atuou com sua sensibilidade e destemor na defesa dos que sofreram as atrocidades e profundas injustiças da odiosa ditadura brasileira.  Tempos a serem lembrados para jamais se repetirem, dizia ele.

Malheiros foi professor de tantos na PUC/SP. Ensinar, trocar e aprender. Ele fazia tudo isso com seus alunos que terão imensas saudades dele.

Malheiros partiu, mas Malheiros permanece. No coração, e no exemplo fincado em muitos.

Malheiros combinava com esperança. E com afeto. Fará falta nesses tempos de destemperança e ódio que tanto afetam os  direitos humanos que ele defendeu diuturnamente.

*Dora Martins, juíza aposentada do TJSP, membro da AJD e do Instituto Brasileiro de Direito da Criança e do Adolescente (IBDCRIA)

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