Mal da abstenção de voto em São Paulo ameaça a representatividade

Mal da abstenção de voto em São Paulo ameaça a representatividade

Samuel Emilio*

25 de outubro de 2020 | 06h30

Samuel Emílio. FOTO: DIVULGAÇÃO

Pesquisa Datafolha do final de setembro mostra que 38% dos paulistanos entrevistados não têm interesse na eleição para vereador. Os mais desanimados com o pleito são aqueles com até 44 anos, que estudaram até o ensino fundamental ou médio, e que possuem renda familiar de até 5 salários mínimos. Segundo a pesquisa, os pretos estão menos interessados nas eleições do que os brancos.

Além do coronavírus, esse é outro mal que paira sobre São Paulo: a abstenção. Ela é perigosa pois beneficia, justamente, os políticos responsáveis pelo distanciamento entre os cidadãos e as eleições. Isso, porque são aqueles que já possuem mandatos, a máquina pública e bases eleitorais consolidadas que são privilegiados pela desmobilização política da sociedade civil, em detrimento dos estreantes.

Para se ter ideia do tamanho da descrença na política, nas eleições paulistanas de 2016 o vencedor da corrida à prefeitura, João Doria, “perdeu” em número de votos para os brancos, nulos e abstenções. Há 4 anos, mais de 21% do eleitorado deixou de votar – uma quantidade que faria a diferença para qualquer campanha.

Com a pandemia, é natural que as pessoas não se sintam à vontade para ir até a seção eleitoral, eventualmente enfrentando filas, para votar em seu candidato. Mas o momento exige participação, pois estamos lidando com o futuro da nossa cidade. E vale lembrar que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) adotou uma série de medidas para proteger a população no momento do voto. O uso de máscara será obrigatório nas seções eleitorais, haverá álcool em gel para higienização das mãos e o horário da votação foi aumentado em uma hora, priorizando idosos e pessoas do grupo de risco da Covid19 nas primeiras horas da manhã.

Fruto de gestões públicas medíocres ou desinteressadas pelos problemas reais das pessoas, a abstenção se alimenta do desânimo e do descrédito na política institucional. Abrir mão do direito ao voto pode parecer a única saída para quem está desiludido com o estado de coisas.

Contudo, pesquisadores afirmam que a alta na abstenção pode gerar problemas de representatividade na política institucional, afetando segmentos mais pobres e menos escolarizados da sociedade, mais propensos a se abster de votar.

Portanto, distanciar-se da política é a pior estratégia para quem está insatisfeito com a política atual.. Precisamos, na verdade, nos envolver cada vez mais, e tomar o destino da cidade nas mãos, se quisermos mudar os políticos eleitos, dando mandato a pessoas mais próximas da população. Só assim as coisas vão mudar!

Uma cidade mais justa para todos e menos desigual precisa do envolvimento da maioria. No lugar do “ano da abstenção”, vamos fazer de 2020 o ano da renovação!

*Samuel Emílio é engenheiro, ativista do movimento negro, conselheiro do Acredito e de diversidade e inclusão. Fundou a plataforma Engaja Negritude, da Educafro, foi embaixador do Ensina Brasil (Teach For All no Brasil), é Fellow do Programa ProLíder, do Guerreiros Sem Armas e da Arymax, além de Bolsista do ID_Br

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