Mais vacina e menos foro privilegiado

Mais vacina e menos foro privilegiado

Alvaro Dias*

22 de fevereiro de 2021 | 11h55

Alvaro Dias. FOTO: THATI A. MARTINS

Pelo calendário gregoriano, há quase dois meses viramos o ano, mas, de alguma forma, continuamos presos a 2020.  Esperávamos que, pela fé ou por crenças típicas de anos que se iniciam, o coronavírus sumiria do mapa em 2021. Isso, infelizmente, não aconteceu; pelo contrário, além de surgirem novas variantes do vírus e de o número de infectados e óbitos aumentar, nos deparamos com cenas de terror e pânico com falta de oxigênio e de leito nos hospitais. A competência e a pujança dos profissionais de saúde nunca foram tão necessárias e evidentes.

A chegada da vacina, depois de tanta politização e polêmica, nos deu um certo alento, mas o negacionismo e a falta de liderança cobraram seu preço. Embora estejamos sensibilizados com cenas de idosos se vacinando pelo País, ainda não temos um diagnóstico preciso de quando será possível ver todos os brasileiros imunizados. Autoridades não se adiantaram nas negociações com laboratórios estrangeiros e nos deixaram no fim da fila mundial da vacinação.

Sabemos que a prioridade é salvar vidas, isso não se discute, mas não é fácil para os governadores terem que, novamente nesse início de ano, determinar o fechamento do comércio e frear a já tão deteriorada economia brasileira. O desemprego e a fome estão aí, agravados pela pandemia. Esse é o grande desafio do País: equacionar a redução de mortes e não deixar a economia morrer. Fomos emparedados por um vírus que não faz distinção ao escolher suas vítimas: atinge ricos e pobres; atletas e sedentários; idosos e jovens; generais do Exército e generais de suas próprias famílias.

E como se não bastasse assistirmos a mais de mil mortes por dia, temos outra face nefasta desse quadro de pandemia. A corrupção, outro vírus cruel ao qual o País não conseguiu ficar imune, também tem contribuído para as estatísticas de agravamento da situação. É triste ver que, a despeito da dor de famílias que perderam entes para a Covid, recursos que salvariam vidas tenham sido desviados. Sim, o dinheiro que serviria para comprar mais respiradores, remédios e oxigênio está indo parar no cofre dos corruptos. Será que prefeitos, parlamentares, secretários e governadores envolvidos em fraudes não sentem remorso ao verem pacientes morrendo por falta de estrutura nos hospitais? Será que não dói saber que a compra superfaturada rendeu propina, mas que com o dinheiro que comprou um respirador, daria para comprar cinco?

A pandemia continua expondo o que tantas vezes combatemos da tribuna do Senado, quando defendemos que era necessário refundar a República para nos libertarmos da chaga da corrupção. Muitos insistem na chamada dosimetria de valores, mesmo em um momento tão dramático do País. O discurso de  “Ah, mas no passado roubavam mais” não se justifica quando assistimos – de forma consternada – a pacientes morrerem por falta de estrutura nos hospitais. Ou, ainda, quando um caminhão que transportava oxigênio não consegue passar pela estrada cuja obra de reparação foi prometida há vários anos. E há mais exemplos de descaso com a vida noticiados pela imprensa: remédios vencidos em estoques, aparelhos que quebraram e enferrujaram nos depósitos porque não foram enviados a hospitais.

A culpa é da imprensa golpista, que só fala de coisas ruins, dizem os discursos dos que são pegos em falcatruas. Mas a corrupção, exposta em suas entranhas por operações como a Lava Jato, continua provocando a morte de pessoas inocentes. Mais do que buscar culpados pelo 2020 que não terminou, precisamos acreditar que as instituições públicas ainda têm tempo para acertar. O Congresso Nacional elegeu novos presidentes e espero que eles priorizem projetos de combate à corrupção, especialmente a proposta de emenda à Constituição, de minha autoria, que acaba com o foro privilegiado para autoridades. O projeto, já aprovado pelo Senado, espera há mais de três anos nas gavetas da Câmara para ser colocado em votação. Só para citar um exemplo recente, a deputada federal Flordelis, ré no processo em que é acusada de assassinar o marido, não pode ser presa porque possui foro privilegiado.

Mesmo que, infelizmente, a Lava Jato tenha dado marcha a ré, os parlamentares ainda podem endurecer a legislação para manter presos os condenados em segunda instância, por exemplo. Sei que, a bem do corporativismo, há correntes que querem abrandar as penas para os corruptos e que tentam retroceder no enfrentamento de uma causa tão cara ao povo brasileiro. E pior: muitos que ostentavam bandeiras e prometiam combater a corrupção nos discursos de campanha, hoje se rendem ao status quo da banalização do crime.

A vida não pode ser banalizada. Mais de 246 mil brasileiros morreram de Covid, outros 14 milhões estão sem emprego. Não dá pra simplesmente ir tocando em frente, com números tão trágicos. Para avançarmos, dependemos, mais do que nunca, de liderança, da força da nossa agricultura, de medidas acertadas, de vacinação em massa, de espírito coletivo, do fim de privilégios. Só não adianta fazer discurso anticorrupção e, depois, furar a fila da vacina. Estamos todos no mesmo barco, lutando contra a doença e torcendo para que o Brasil dê certo.

Precisamos que 2021 realmente comece com pautas positivas e que seja um ano de vitória contra a Covid, de retomada dos empregos, de virada na economia. E que também continuemos a luta contra o vírus da corrupção.

*Alvaro Dias, senador, líder do Podemos

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