Mais uma vez…

Mais uma vez…

Geologia e geotecnia são ciências das quais os gestores poderiam e deveriam se valer continuamente para fundamentar tecnicamente decisões acerca de ocupações de áreas de risco

Flavio F. de Figueiredo*

12 Novembro 2018 | 13h30

Flavio F. de Figueiredo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Niterói, Morro da Boa Esperança, madrugada de 10 de novembro de 2018 – mais uma tragédia prevista, esperada, anunciada ou qualquer outro sinônimo que se aplique a acidentes que, embora fossem muito previsíveis, foram esquecidos de lado por aqueles que foram eleitos ou designados para zelar para que não ocorressem.

Primeiro, esses dirigentes não têm coragem para impedir ocupações em locais de risco. Depois, também fecham os olhos para o processo de crescimento das ocupações.

Ganhando corpo, essas ocupações passam a ostentar o status de comunidade e, nesse estágio, com a chance de angariar votos, levam infraestrutura básica para facilitar a vida dos ocupantes de locais em que os riscos são visíveis a olho nu.

Facilitar a vida? Não. Aumentar as chances de seu fim em alguma brusca manifestação da natureza, alterada pelos ocupantes com a quebra de seu frágil equilíbrio.

Em situações em que, no limite, esses gestores identificam riscos, áreas são interditadas no papel, apenas para lavarem as suas mãos. Ninguém tem pulso, nem determinação, para retirar aqueles que, indevidamente, se instalaram com suas famílias em áreas de risco.

Teimosos, ignorantes e crianças inocentes morrem ou são mutilados em razão dessa omissão covarde, que apenas serve para demonstrar a incompetência daqueles que deveriam cuidar das cidades.

Geologia e geotecnia são ciências das quais os gestores poderiam e deveriam se valer continuamente para fundamentar tecnicamente decisões acerca de ocupações de áreas de risco.

No entanto, como em muitas outras situações, decisões políticas, burocracia, incompetência e outras coisas ruins criam um amálgama que emperra ou impede a tomada de medidas enérgicas e eficazes, mas talvez impopulares.

Sem mudar essa forma de ver as coisas, sem quebrar esses círculos viciosos, só resta repetir, mais uma vez, uma triste previsão: outras tragédias como esta irão ocorrer e as desculpas que ouviremos serão as mesmas.

Talvez enunciadas por outros personagens da gestão pública, talvez pelos mesmos de sempre.

*Flavio Figueiredo, engenheiro civil, consultor, conselheiro do IBAPE/SP (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo) e diretor da Figueiredo & Associados Consultoria

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