Mais uma doença: ansiedade climática

Mais uma doença: ansiedade climática

José Renato Nalini*

15 de março de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Não acredito que ela acometa muita gente. São raros os espécimes sensíveis, que se comovem com a extinção da vida, qualquer ela seja: animal ou vegetal, sob as suas múltiplas expressões.

Mas existe um pequeno grupo de seres que se afligem com a inconsequência do mundo. O Estado, que é uma instituição artificial, criada para ajudar os humanos em sua luta pela sobrevivência, converteu-se ele mesmo num destruidor do nosso único habitat. Como a imensa maioria da população se acostumou à tutela estatal, é dependente do “Estado-Babá”, quando o mau exemplo vem de cima, ela não hesita em acompanhar.

É o que explica a destruição do verde no âmbito macro e no micro. A incrível produção de dejetos, a cultura do descarte, o desperdício, a sujeira, a imundície poluidora.

Em países civilizados, nos quais a consciência ecológica se angustia, e com razão, a ansiedade climática reclama especialização e terapia. O psicólogo de Portland Thomas J. Doherty e sua colega Susan Clayton, professora de psicologia no College of Wooster, em Ohio, publicaram um artigo propondo nova ideia. O móvel do texto era o de que mudanças climáticas teriam poderoso efeito psicológico. Não somente em relação às pessoas que sofrem seus impactos diretos, mas também naquelas que acompanham o agravamento da situação mediante leitura de notícias, redes sociais, pesquisas e livros.

O ceticismo inicial com que a análise foi recebida foi retrocedendo à medida em que o surreal da condição climática do planeta foi se tornando cada vez mais frequente. A juventude mais ativista até criou um termo e conceito novo: eco-ansiedade. É um estágio tanto emocional como racional. Pessoas que exercitam a racionalidade não se conformam com a insanidade dos que incendeiam florestas, incentivam a delinquência generalizada na invasão de terras públicas, grilagem, exploração de minérios em áreas demarcadas para moradia das etnias que eram as verdadeiras proprietárias da terra, muito antes da chegada lusa.

A constatação de tamanha tragédia ocorrendo sob a passividade de quase todos, faz com que o emocional desses humanos se fragilize. E eles passam a necessitar de terapia.

Não se dispõe ainda de tratamento eficaz, mas verifica-se que é um campo em expansão. A Cimate Psychology Alliance oferece um diretório online de terapeutas aficionados do clima, a Good Grief Network, rede de apoio de pares baseada em programas de dependência em doze etapas, gerou mais de cinquenta grupos. Começam também a surgir programas de certificação em psicologia climática.

Tais dados são fornecidos por Ellen Barry e foram publicados no The New York Times e reproduzidos pelo Estadão em 14.2.2022.

A experiência de Doherty evidencia que o tema não é tão exótico, assim como se poderia pensar. Dentre seus clientes, destacam-se uma jovem com dezoito anos e seguidos ataques de pânico, tão sérios que não consegue se levantar da cama. Um geólogo glacial de 69 anos que afunda em tristeza quando olha para seus netos. Outro de cinquenta anos que não suporta as escolhas de consumo antiecológico de suas amizades.

Doherty chegou a elaborar uma prática clínica e se tornou autoridade sobre o clima na psicoterapia. Apresenta um podcast chamado Climate Change and Happiness, que inova em termos de tratamento de ansiedade, indo além da terapia cognitivo-comportamental e avança para a terapia existencial, concebida para ajudar as pessoas a combater o desespero e a ecoterapia, que explora a relação do paciente com o mundo natural.

Quanto mais civilizado o espaço, mais síndromes ambientais são registradas. Uma pesquisa em dez países com dez mil pessoas, entre dezoito e vinte e cinco anos, realizada pelo periódico The Lancet, detectou taxas surpreendentes de pessimismo. 45% dos entrevistados afirmaram que a preocupação com o clima afeta negativamente sua vida rotineira. 75% têm a certeza de que o futuro será assustador e 56% acreditam que a humanidade está condenada.

Não há como deixar de ficar atônito quando se verifica a desfaçatez com que o tema é tratado. O Brasil, que foi considerado promissora potência verde, retrocedeu muito ao incentivar destruição da Amazônia e de todos os outros biomas. O mero título de “pária ambiental” é um golpe no patriotismo simbólico de crianças e jovens embalados na poesia do gigante em berço esplêndido. Um berço em chamas, para aflição de quem se considera um elo nessa cadeia vital, que tem outros elos rompidos, prenúncio de que vigora o desrespeito a esse frágil milagre chamado vida.

Mas há uma vacina: tornar-se ambientalista. Plantar, a despeito do extermínio. Proteger o verde ao seu alcance. E disseminar esse evangelho ecológico. Talvez o impossível se viabilize, para se concluir que o projeto humano não fracassou.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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