Mais um amigo se foi

Mais um amigo se foi

Antônio Cláudio Mariz de Oliveira*

26 de julho de 2020 | 07h00

Antônio Cláudio Mariz de Oliveira. Foto: Acervo pessoal

Mais um amigo se foi. Pois é, as perdas acumuladas reapresentam o grande sofrimento imposto pelo avanço da idade. Engana-se quem atribui às limitações físicas, às restrições sociais, aos abalos psicológicos os maiores ônus do envelhecimento.

Não. Nada disso. Todos esses percalços são suportáveis. Perder um companheiro querido isso sim, é o “X do Problema”, para plagiar Noel Rosa.

Como superar a perda. Não sei e duvido que alguém saiba. Toca-se a vida. Mas ela passa a ser vida capenga, manca, desfalcada. E, quanto mais se envelhece, mais se sente o desfalque.

Carlos Drummond de Andrade disse estar andando de banda, por causa do vazio do seu lado esquerdo. É o meu caso.

O vírus atingiu José Mentor. Ele não resistiu à “gripezinha”. Outros que fariam menos falta do que ele estão resistindo e zombando. Macabra e funesta zombaria. Aliás, aquele que zomba, zomba do próprio povo brasileiro, vítima da cruel pandemia. Que Deus lhe poupe da perde de um ente querido.

O deputado Jose Mentor (PT-SP), que foi relator da CPI do Banestado Foto: Ed Ferreira/Agência Estado

Eu tive uma perda. José Mentor amigo e companheiro. Cinquenta anos de convivência. Ele com quinze e nós, colegas da sua irmã Angélica de Almeida, da Turma de 1969, da Faculdade Paulista de Direito da PUC, com dezenove em média, já o conhecíamos. Ele acompanhava a irmã em nossas festas de calouros. Anos depois entrou na Faculdade. Teve intensa vida acadêmica, especialmente nas atividades políticas. Engajou-se no combate à ditadura militar. Esteve preso no Presídio Tiradentes.

Sua opção pela luta em prol da liberdade, da democracia e dos direitos humanos manifestou-se desde sempre. Talvez desde o berço.

Ingressou na política partidária e também passou a advogar. Corajoso, inquieto, inconformado com injustiças, reunia, pois, as características comuns ao político destemido e ao advogado verdadeiramente vocacionado. Defendeu no Parlamento causas em prol da coletividade e em sua banca postulou pelo primado da lei e da justiça.

Durante anos amargou acusações que se mostraram infundadas. O Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal lhe fizeram justiça. Proclamaram-no inocente.

Eu o acompanhei em todas as etapas do seu calvário. Sofremos juntos. Compartilhamos as dúvidas, as angústias, as incertezas, que se avolumam em épocas de insegurança jurídica.

Eu sabia dos enganos e distorções das acusações. Mas será que os julgadores sabiam? Souberam e, repito, fizeram justiça.

Mas não apagaram as marcas dos açoites, representados pela exposição midiática, pelos comentários levianos e desarrazoados. Sofreu, sofremos juntos.

Superou galhardamente a injusta situação.

É, Zé Mentor, você se foi. Nós ficamos, mas na verdade você está conosco. Como disse Fernando Pessoa a morte é como a curva da estrada, só não se é mais visto. Permanece a sua presença, mesmo com a sua ausência.

Você continua ao lado de suas filhas e filho, seus netos, sua irmã e seus irmãos e todos os seus amigos e amigas.

Mentor, aos domingos, doravante e como sempre foi, estarei sentado no banquinho em frente ao seu, no bar de casa, brindando à vida que juntos compartilhamos.

*Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, advogado criminal

 

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