Mais educação, menos Weintraubs

Mais educação, menos Weintraubs

José Renato Nalini*

05 de julho de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O espírito republicano ainda não impregnou a bizarra cultura brasileira. Resquícios manifestos do longo período monárquico perduram na consciência coletiva. Não é por acaso que se abusa tanto da vassalagem, da sabujice, do contorcionismo de espinhas dorsais complacentes, ante a possibilidade de ser chamado ao Olimpo do Planalto.

Titularizar um Ministério equivale a integrar o reduzido grupo da Corte, inebriar-se com o incenso da mídia, ser manchete e ocupar boa parte do diuturno noticiário. A bolsa de apostas merece análises, comentários, palpites, achismos e, assim que o quadro se define, haja espaço para a tática das homenagens.

A diferença com o mundo civilizado é gritante. Uma cidadania atenta e partícipe acompanha a seleção dos escalados para a alta administração. Preponderam a competência, o conhecimento e a experiência. Não é a prática tupiniquim. Aqui, a regra é lotear os cargos, de acordo com a estratégia da coalizão. Nação pródiga em elaborar projetos de um País melhor, são quase quarenta os partidos que disputam os ambicionados espaços na partilha do Erário. Leva a nomeação aquela parcela que representar mais votos no Parlamento.

Essa tem sido a crônica dos Ministérios na República Federativa do Brasil. Quando a seleção é baseada em ideologia e servilismo ao chefe, o desastre é outro. A postura caricatural de algumas figuras que já deixaram seu retrato nas galerias destinadas à perpetuação da memória não gera saudades, mas nítido constrangimento.

Isso não poderia acontecer com alguns temas fundamentais ao resgate dos valores em declínio neste Brasil que não conseguiu atingir o ápice. Educação: única ferramenta capaz de transformar uma Nação que escancarou sua miséria na pandemia e que regrediu, violentamente, nos últimos tempos.

Educação resolve problema de saúde. A falta de higiene e de saneamento básico é uma concausa eficiente na tragédia da Covid19. Educação faria a população indignar-se com a destruição do ambiente. Patrimônio que não foi construído por qualquer brasileiro, mas que desaparece ante a inclemente ignorância dos imediatistas.

Educação solucionaria a questão do desemprego. A escola não tem conseguido qualificar para o trabalho, como consta da Constituição. Nem preparar o indivíduo rumo a uma cidadania participativa. Menos ainda, fazer o educando ser uma pessoa mais equilibrada, consciente de suas potencialidades e de seus limites, na possível aproximação do conceito humano de felicidade.

O Ministério da Educação deveria ser o indutor de uma política pública séria, de prestígio da missão de ensinar. Focar o professor e propiciar a ele condições de assimilar todas as tecnologias da comunicação e informação disponíveis, postas a serviço de um aprendizado consistente.

A preocupação com as avaliações submete o magistério à burocrática tarefa de preparar testes, à logística perversa de aplica-los, de corrigi-los, de tabulá-los, de elaborar rankings. Estes servem ao governante para a sua eleição ou, pior ainda, para o flagelo da famigerada reeleição. Não houve uma só reeleição bem sucedida nesta triste Pátria.

Uma educação baseada na transmissão de conhecimento por alguém presumivelmente detentor desse manancial secreto, para os alunos, que seriam tábulas rasas, jejunos e desprovidos de qualquer informação, é superada, mas a estrutura estatal não percebe. Insiste nas mesmas anacrônicas ideias, sem notar que o mundo é outro. Mais de 270 milhões de mobiles propiciam aos pouco mais de 210 milhões de brasileiros o acesso a tudo o que acontece. O professor precisa ser o orientador que seduza o discípulo a filtrar os dados e a valer-se deles para o seu contínuo aprimoramento.

Conceder autonomia às diretorias de escolas bem

sucedidas, favorecer o pluralismo, pois o ser humano é insuscetível de padronização, incentivar a família a zelar pelo aprendizado de sua prole, prestigiar a iniciativa privada e incentivar a educação corporativa. Pois o mercado sabe que a educação convencional está longe de fornecer a ele os talentos e aptidões necessárias ao mundo em constante mutação.

A Universidade é, por vocação, a instância da permanente procura pela verdade. Algumas delas precisam abrir-se ao mundo e produzir aquilo de que o Brasil necessita. Atendendo à demanda e se aliando à iniciativa privada, que não tem por si um Erário continuamente esvaziado por más práticas. O empreendedor no Brasil é um herói. A parte necrosada da burocracia estatal tem ódio do lucro. Mas sem que os empreendimentos prosperem, não haverá como sustentar os perdulários ocupantes da administração direta.

A educação é algo muito sério para ser deixado com exclusividade ou mesmo prioritariamente nas mãos do Estado. Ela é motor cujo saudável funcionamento depende da cidadania e da família. Um Ministério da Educação, se quiser influenciar a transformação do Brasil – que ocorrerá, a despeito dele – terá de ser o emitente de mensagens que induzam o envolvimento de todos os brasileiros na relevância de um processo contínuo e sólido de formação alicerçada em valores. Não apenas em rankings.

Mais educação, em todos os níveis, formal e informal, permanente e inclusivo, é aquilo de que o Brasil continua a necessitar. Mais educação de verdade, menos Weintraubs.

*José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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