Mais do que uma prisão

Roberto Gondo Macedo*

22 de março de 2019 | 16h10

A prisão de dois ex-presidentes em um período relativamente curto da história política brasileira representa mais do que o combate à corrupção. Visto que denúncias não são amparadas em situações unilaterais de desvio de dinheiro e conduta, estamos diante de acusações de esquemas de usurpação de recursos públicos e de conchavos com o setor privado que saltam aos olhos – principalmente quando se analisa friamente o poder maquiavélico dessas redes de interesse.

Quando se observa o Ministério Público Federal (MPF) apontando Michel Temer, sentimos uma torpe sensação de letargia judicial e de impotência nessa relação de tempo x sociedade: há poucos meses ele nos representava institucionalmente nos maiores eventos diplomáticos do mundo e, hoje, torna-se acusado como sendo um dos chefes de uma organização que se amparava em uma conduta corrupta de aliciamento de recursos, agindo a pelo menos 40 anos.

A Lava Jato chegou a ser uma dúvida quanto à continuidade e evolução nos processos de investigação. Mas ao mesmo tempo que intriga, a operação mostra um rápido empoderamento dessa frente de combate ao sistema de corrupção, obviamente representado pela figura de Moro, ainda que gere uma sensação indigesta entre governo e justiça.

Mesmo assim, as medidas recentes podem promover tensões nos múltiplos atores políticos brasileiros, dos que não possuem foro privilegiado aos eleitos pelo povo legitimamente.

Independentemente da Lava Jato, o Brasil deve aproveitar essa ruptura cultural – de que nada se pune no país das bananas – e estimular o cumprimento de investigações e acusações independentemente do grupo político envolvido.

Com o passar do tempo, isso gera uma sensação de que realmente estamos em condições de acordar com um novo modelo de comportamento social, em que a corrupção não será extinta, mas que qualquer cidadão ao optar por esse meio de crescimento, terá punições reais e pertinentes ao delito.

*Roberto Gondo Macedo é professor e pesquisador no Centro de Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e coordenador do Observatório de Marketing Político e Governamental – OMPG Mack da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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