Mais ciência e menos política

Mais ciência e menos política

José Renato Nalini*

27 de junho de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Nossa educação fundamental é insuficiente para alicerçar a capacidade do educando para prosseguir nas demais etapas. Focamos a memorização e deixamos de lado as habilidades socioemocionais, as competências realmente necessárias para um bom desempenho na vida e no convívio.

Dentro da lástima geral, o universo mais negligenciado é o da ciência. E o Brasil teria tudo para ser protagonista mundial em ciência, tecnologia e inovação. Pois nossa infância e juventude são criativas, engenhosas, originais e empreendedoras. Necessitam apenas de estímulo e boa orientação.

Para o físico Luiz Davidovich, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente da Academia Brasileira de Ciência, o Brasil tem a matriz energética mais limpa do planeta, vinte por cento da biodiversidade mundial, recursos hídricos abundantes e clima que permite aproveitamento solar e eólico. Mas para se valer dessas oportunidades gratuitas, é urgente um projeto consistente de país, que reduza a vergonhosa desigualdade social. Em sua opinião, “a desigualdade desperdiça milhões de cérebros nos morros, nos mangues. Um gênio não escolhe onde vai nascer. E só mudamos isso com educação de qualidade para todos”.

O projeto brasileiro que o físico sustenta ser necessário e urgente precisaria ser o resultado de um consenso nacional. Algo que congregasse tudo o que já se faz – e muito bem – nas Universidades brasileiras, que concentram quase toda a produção científica, em estruturas como o CNPQ, Capes e Fapesp. Eu acrescentaria que o projeto não poderia deixar de lado experiências como o do sistema S, sabendo-se que SESI, SESC e SENAI produzem um extraordinário trabalho na educação de qualidade, além das Universidades Corporativas. Estas foram a resposta da iniciativa privada para o vácuo de talentos, eis que Universidade só produz diplomas, não profissionais. Quem necessita de elemento especializado é obrigado a formá-lo, já que a educação convencional não dá conta disso e nem se preocupa com essa carência nacional.

O Brasil acomodou-se na condição de colônia fornecedora de comodities para a civilização. No setor agropecuário, nossa fonte de exportação é o grão que vai alimentar gado estrangeiro, enquanto trinta e três milhões de brasileiros passam fome diariamente e outros cento e cinquenta milhões têm insegurança alimentar. Também exportamos ferro para a China e compramos aço dos chineses.

Não conhecemos a floresta amazônica, trilionária em potencialidades e pagamos royalties para a indústria farmacêutica mundial. Se tivéssemos pesquisa orientada à descoberta de insumos ainda ignorados, multiplicaríamos nossa condição de fornecer valor agregado em nossas exportações.

Davidovich dá um exemplo: a bergenina, um glicosídeo anti-inflamatório e antioxidante encontrado no fruto e no caule do uxi-amarelo, uma planta medicinal amazônica. Quem se apropriou dela foi o laboratório suíço Merck, que purifica, extrai o princípio ativo e vende para nós. O preço por miligrama é superior a quatro mil vezes o preço do ouro. “No Brasil, o garimpo de ouro da Amazônia está destruindo nosso verdadeiro ouro. Nosso ouro é a nossa biodiversidade”.

Somente um cientista – e não a baixa política profissional, envolvida em orçamento secreto e em reeleição – enxerga que o desenvolvimento sustentável é muito mais rentável do que a devastação. O açaí requer a preservação da floresta e o valor por hectare do açaí é oito vezes o ganho por hectare da pecuária.

De igual forma, a energia eólica propicia a produção de hidrogênio verde, a grande promessa da sociedade contemporânea, que substituirá as baterias elétricas e com pegada de carbono muito menor.

Só que falta um governo capaz de pensar no Brasil e não em orçamento secreto, em mais poder e em eleição e na matriz da pestilência, raiz de todos os males recentes, chamada reeleição.

Estamos perdendo espaço em todos os setores. Deixamos de usufruir de nossas vantagens comparativas, ignoramos o capital que nos foi ofertado gratuitamente, mas que exterminamos sem piedade. Confiamos na infinitude de condições vulneráveis e finitas. Parece que não nos apercebemos que a nossa maior compradora de soja, a China, já está investindo na soja da Tanzânia. E que pretende obter autonomia em carne, que ainda importa de nós.

Precisamos de cérebros ágeis e patriotas. Mais ciência e menos política é a receita para o Brasil recuperar o rumo e o ritmo de um verdadeiro desenvolvimento.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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