Por 9 a 1, STF impede governo de monitorar servidores ‘antifascistas’

Por 9 a 1, STF impede governo de monitorar servidores ‘antifascistas’

Tribunal concluiu hoje julgamento sobre elaboração de dossiê contra 579 servidores identificados como 'antifascistas'

Rafael Moraes Moura e Breno Pires/ BRASÍLIA

20 de agosto de 2020 | 15h49

Fachada do Supremo Tribunal Federal em Brasília. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Por 9 a 1, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram nesta quinta-feira (20) suspender todo e qualquer ato do Ministério da Justiça de produção ou compartilhamento de informações sobre cidadãos “antifascistas”. Pelo entendimento da maioria, a pasta comandada pelo ministro André Mendonça fica proibida de levantar dados sobre a vida pessoal, escolhas pessoais ou políticas e práticas cívicas exercidas por opositores ao governo Bolsonaro que “atuam no limite da legalidade”. Os magistrados viram “desvio de finalidade” no episódio, concluindo que a Secretaria de Operações Integradas (Seopi) promoveu uma “devassa” ao coletar informações de 579 servidores públicos.

Relatora do caso, a ministra Cármen Lúcia, já havia votado na última quarta-feira contra o monitoramento de opositores do governo, revelado pelo site de notícias UOL. Com duros recados ao Planalto, a ministra disse que o Estado “não pode ser infrator”, ressaltou que “não compete a ninguém fazer dossiê contra quem quer seja” e elogiou a imprensa, que revelou a existência do relatório.

Os ministros, no entanto, não atenderam ao pedido da Rede de abrir um inquérito para apurar o episódio, o que foi interpretado nos bastidores como uma forma de poupar a gestão Mendonça. Marco Aurélio foi o único que se posicionou contra suspender a produção dos dossiês.

Na avaliação de Rosa Weber, relatórios de inteligência “não podem ter como alvo uma ideologia específica, ou sua ameaça, independentemente da ideologia que expressa”. “Em uma democracia, ninguém deve temer represálias por apenas expressar uma opinião, uma crença um pensamento não endossado por quem ocupa posição de autoridade. Um estado constitucional não admite que sejam as ações do estado orientadas pela lógica do pensamento ideológico”, frisou a ministra.

Para o ministro Edson Fachin, o direito à livre manifestação e o direito ao protesto, como o do movimento “antifascista” que teria levado à produção do relatório, não é infração penal e “não está, portanto, sujeita, seja à investigação penal, seja à atividade de inteligência”.

“A defesa da liberdade de expressão também é muito importante na atração dos investidores estrangeiros. Os reflexos internacionais, quando se insinuam esses relatórios que podem voltar nossa memória a um período bastante nebuloso, tem reflexos internacionais”, afirmou o vice-presidente do STF, Luiz Fux.

“O STF tem dado exemplos extremamente significativos de que liberdade de expressão é algo que combina com a democracia. Uma investigação enviesada, que escolhe pessoas para investigar, revela uma inegável finalidade intimidadora do próprio ato de investigação. Esse efeito, como a própria ministra Rosa acaba de mencionar, de medo, efeito silenciador, inibe servidores públicos e professores e difunde, o que é pior de tudo, a cultura do medo. Esse relatório é a cultura do medo baseada em um nada político, em um nada jurídico.”

O ministro Ricardo Lewandowski, por sua vez, frisou a importância de o STF estabelecer parâmetros claros à atividade de inteligência. “O que não se admite é que num Estado democrático de Direito se elabore dossiês sobre cidadãos dos quais constem informações quanto a suas preferências ideológicas, políticas, religiosas, culturais, artísticas ou, inclusive e especialmente, de caráter afetivo. Se isso ocorreu, e de gato num passado recente sob o regime militar isto se deu, ou se ainda ocorre é algo que será ainda avaliado”, observou.

Na avaliação de Luís Roberto Barroso, o “passado do Brasil condena em matéria de utilização indevida dos órgãos de segurança”. Esse tipo de monitoramento para saber o que fazem eventuais adversários é completamente incompatível com a democracia. A menos que se tivesse qualquer elemento para supor que eles tramavam contra o Estado ou instituições democráticas. Mas se a preocupação fosse verdadeiramente essa, talvez fosse o caso de monitorar os grupos fascistas e não os antifascistas”, criticou Barroso.

Recados. Durante o julgamento, Fachin revelou que a produção do relatório sigiloso começou no dia 24 de abril, mesma data em que Sérgio Moro pediu demissão do cargo. Último a votar no julgamento de ontem, o presidente do STF, Dias Toffoli, elogiou a atuação de Mendonça, que entregou ao tribunal cópia dos dossiês produzidos na sua gestão e por seus antecessores. Um dos integrantes da ala do STF mais crítica à Lava Jato, Toffoli aproveitou a sessão para alfinetar Moro, mesmo sem citá-lo nominalmente. 

“Nós não podemos fazer injustiças com pessoas que dedicam a vida pública ao Estado brasileira de maneira correta. Há muitas pessoas que, às vezes, aparecem na imprensa bem na foto, mas são péssimas na vida pública e nas vidas que elas têm, criando fundos para administrarem, criando inimigos políticos para depois serem candidatos, e afastando as pessoas da vida pública e querendo galgar depois eleições futuras. Eu já disse isso e não preciso repetir. Para bom entendedor, meia palavra basta”, disse Toffoli.

Em seu voto, o ministro Gilmar Mendes também citou o pedido de detalhamento solicitado pelo governo em 24 de abril. Mendes frisou que o pedido incluía também vinculações políticas de policiais e outros dados considerados úteis. “É importante lembrar que a data de 24 de abril de 2020 coincide com o último dia da gestão do ex-ministro Sérgio Moro, ou seja, dias antes da nomeação do doutor André Mendonça para o cargo”, frisou Mendes, que também integra a ala mais crítica à Lava Jato.

Lista. Alexandre de Moraes, por sua vez, destacou que o dossiê contra servidores antifascistas lista, Estado por Estado, a relação de policiais que seriam opositores do governo.

“Uma coisa é estabelecer, através de troca de informações, em tese, que há uma possibilidade de greve de policiais que possa gerar insegurança pública. Isso é importante nos relatórios de inteligência para se evitar o caos social. Uma coisa é a troca de informações, relatórios de inteligência para se verificar eventuais manifestações que possam interromper, como houve na greve dos caminhoneiros, o abastecimento. São fatos – você analisa fatos. Outra coisa é começar a planilhar, Estado por Estado, policiais militares, civis, que são lideranças eventualmente contra o governo, lideranças contra manifestações realizadas a favor do governo”, disse Moraes.

Ex-ministro da Justiça do governo Temer e ex-secretário de Estado do governo de São Paulo, Moraes disse que não importa se o policial militar, civil, rodoviário federal ou federal é “a favor politicamente A ou B, se vota em A, B, C, se professa determinada religião ou crença filosófica”. “Desde que ele exerça sua função dentro dos limites legais, tem absoluta liberdade para aderir. Não são os órgãos de inteligência do Estado que podem fiscalizar, intuir se ele é a favor ou contra (ao governo)”, observou o ministro.

Moraes apontou desvio de finalidade na “tentativa de determinados órgãos de inteligência” de planilhar as preferências políticas, filosóficas de agentes policiais, sem que eles tivessem cometido qualquer atividade ilícita. “Começa-se a se tachar pessoas, não é isso que a legislação autoriza. Não é possível que qualquer órgão público possa atuar fora dos limites da legalidade. Isso é grave. Tava mais pra fofocaiada do que pra relatório de segurança”, resumiu o ministro.

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