Maior corretor mundial de drogas preso no Brasil

Maior corretor mundial de drogas preso no Brasil

Wálter Fanganiello Maierovitch*

25 de maio de 2021 | 16h25

Wálter Fanganiello Maierovitch. FOTO: DENISE ANDRADE/ESTADÃO

Rocco Morabito, 55 anos, membro da secular ‘NDrangheta calabresa, ganhou na Itália o apelido de “Fantasma”. Isso por ter sido procurado internacionalmente durante 23 anos: 1994 a 2017.

O mais longevo mafioso em fuga é Matteo Messina Denaro, da Cosa Nostra siciliana, com ordem de prisão emitida em 3 de junho de 1993. Messina Denaro encabeça a lista de procurados da Interpol e, na Itália, da Procuradoria Nacional Antimáfia.

A diferença entre ambos é que Messina Denaro, capo-mafia de Castelveltrano e nascido em 1962, nunca tirou os pés da Sicília, a gozar da rede de proteção da Cosa Nostra siciliana.

Morabito não é um capo-mafia do porte de Messina Denaro, mas, com formação pela Universidade de Messina, tornou-se o maior “broker” de drogas da ‘NDrangheta calabresa, hoje a mais forte das quatro máfias italianas. Nenhum corretor de drogas, a ensejar negócios de compra e venda internacional de cocaína, tem fama de ser mais eficiente do que Rocco Morabito.

Para facilitar a lavagem de dinheiro, Morabito fixou residência em Punta del Leste, com passaporte brasileiro falso.

Por pressão da Itália, foi preso em 4 de setembro de 2017 num hotel 5 estrelas de Punta del Leste, onde vivia. Tinha uma Mercedes-bens do ano, doze cartões de crédito da classe “black”, treze celulares, além do passaporte brasileiro com o nome de Francisco Antonio Capeletto Souza.

Enquanto tramitava pela Justiça do Uruguai o pedido de extradição formulado pela Itália, Morabito, no estilo do mexicano El Chapo, mandou cavar um túnel e por ele fugiu do cárcere-central da cidade de Montevidéu, em 24 de junho de 2019.

Rocco Morabito. FOTO: POLÍCIA DA ITÁLIA

Como operador de negócios com a cocaína, Morabito, por ocasião da sua primeira prisão, havia escolhido o Uruguai por ser conhecido como centro internacional de lavagem de dinheiro, aliás, bem conhecido dos brasileiros em razão do episódio, de triste memória, a envolver o então presidente Collor de Mello.

A intermediação feita entre Morabito envolve cartelitos colombianos e a ‘NDrangheta. Como se sabe, na Colômbia, depois das prisões de Pablo Escobar e os irmãos Orejuela, não mais há lugar para megacartéis. Hoje, uma miríade de cartelitos fornece cocaína ao mundo e o Brasil tem papel importante, pois fornece insumos químicos para a transformação da folha de coca em cloridrato de cocaína.

Depois da fuga do Uruguai, o ´ndrine Morabito preferiu se estabelecer no Brasil. Seu nó na rede tecida pela a máfia calabresa é na cidade de Locride, na região metropolitana de Reggio Calábria. O nosso país é o corredor por onde transita a droga dirigida ao mercado consumidor europeu. Mais ainda, a estrutura portuária brasileira é de excelência. Na logística de Morabito, o Brasil sempre foi considerado importante: no porto de Santos são constantes as apreensões de cocaína atribuídas, quase sempre, a operadores d ‘NDrangheta.

Coube à repartição antimáfia da polícia militar italiana, o famoso ROS (Raggruppamento Operativo Speciale), localizar Morabito. Numa operação conjunta com a Polícia Federal brasileira, Morabito foi preso e estava na companhia do potente traficante internacional Vincenzo Pasquino, 35 anos, um italiano de Torino (Piemonte). Em auxílio à operação, atuou o FBI e a Interpol.

Durante anos, o principal mercado italiano abastecido por Morabito era Milão, a principal cidade industrial italiana. Em Milão ele mesmo comandava à distancia uma rede de vendedores de cocaína. Morabito está definitivamente condenado na Itália por associação mafiosa e tráfico internacional de drogas. O processo tramitou por Milão e as penas impostas somam 30 anos de reclusão. Deverá começar a cumprir a pena em sistema de cárcere duro para mafiosos, conforme previsto no artigo 41, bis, do Código Penitenciário italiano.

Na Itália, como mencionado, a lista da Procuradoria Nacional Antimáfia é encabeçada pelo supracitado Matteo Messina Denaro, visto por muitos como o sucessor do falecido e sanguinário Totó Riina, o chamado “capo dei capi” (chefe dos chefes). O segundo dessa lista é Rocco Morabito, um broker a mostrar a importância dada captura de fomentador das finanças do crime organizado transnacional.

Rocco Morabito é a prova viva do papel do Brasil na geoestratégia e na geoeconomia mafiosa. Será mais um nome de presos mafiosos que escolheram o Brasil, como Tommaso Buscetta, Antonino Salamone, Gaetano Badalementi, etc.

*Wálter Fanganiello Maierovitch, jurista, é autor do livro Máfia, Poder e Antimáfia – um olhar pessoal sobre uma longa e sangrenta história (editora Unesp, edição de maio de 2021)

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