Mães não deveriam morrer

Mães não deveriam morrer

José Renato Nalini*

02 de janeiro de 2021 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Muitos já disseram isto. Sabem que é apenas a expressão de um sentimento de órfão. Orfandade não tem idade e os que a experimentaram sabem disso.

A morte é inevitável. A mais democrática das ocorrências, não se consegue fugir dela. Apenas adiá-la. Às vezes.

Sou daqueles que repetem qual mantra: “quem tem mãe tem tudo; quem não tem mãe, não tem nada!”.

Não estou sozinho. Winston Spencer Churchill, por exemplo, nasceu em 1874, em plena era vitoriana. Sua mãe, Lady Randolph Churchill estava grávida de sete meses. Escorregara e caíra enquanto participava de uma caça no palácio de Blenheim. Poucos dias depois, viajando numa carruagem sobre terreno acidentado, sentiu as dores do parto. Rapidamente conduzida a palácio, ali deu à luz na madrugada de 30 de novembro.

A vivenda era o magnífico palácio do avô, o sétimo duque de Marlborough. Berço de ouro não foi mera expressão. Winston pertencia à aristocracia britânica, sendo seus ascendentes o primeiro Conde Spencer e John Churchill, primeiro duque de Marlborough. O pai, Lorde Randolph Churchill, fora eleito por Woodstock para a Câmara dos Comuns, como membro do Parlamento. O avô, sétimo duque de Marlborough, foi vice-rei da Irlanda.

A ligação de Winston com a mãe foi profunda e íntima. Ambos os pais eram extremamente severos. Extrai-se de uma carta do pai ao jovem Winston um trecho eloquente: “Veja se imprime indelevelmente em sua mente que, se seu comportamento e suas ações em Sandhurst forem semelhantes ao que têm sido nos outros estabelecimentos onde se tentou em vão transmitir alguma educação a você, então minha responsabilidade acaba. Você estará entregue a si próprio e darei apenas a assistência que for necessária para permitir uma vida respeitável. Tenho certeza de que se não conseguir evitar a vida indolente, inútil e imprestável que levou durante seus anos de estudo e nos últimos meses, será um vagabundo social, um entre as centenas de falhas da escola pública, e terá uma existência miserável, infeliz e fútil. Se isso acontecer, será o único culpado de suas desgraças. Sua consciência permitirá que recorde e enumere todos os esforços que foram feitos para dar a você as melhores possibilidades a que tem direito por sua posição e como você praticamente desprezou todas elas”.

Nada autorizava presumir que esse jovem “indolente” viesse a se tornar o inglês mais célebre do século XX. O pai austero morreu antes de completar 46 anos, em 24.1.1895. A partir daí, intensifica-se o convívio com a mãe, com a qual se correspondia com frequência. Ela acompanhou o seu desenvolvimento cultural e influenciou seu ingresso na política. Usava de suas relações para recomendá-lo e, ao mesmo tempo, fornecia muitos livros para que ele se tornasse erudito. Incentivou-o a escrever, carreira que exerceu durante toda a vida.

Em 1900, foi lançado futuro candidato às eleições gerais. Esperava que a mãe estivesse com ele nos primeiros comícios. Mas ela estava prestes a se casar com o capitão George Cornwallis-West, que era dezesseis dias mais velho do que Winston e vinte anos mais novo do que a noiva.

Em 1º de junho de 1918, Lady Randolph Churchill se casou pela terceira vez, agora com Montagu Porch, funcionário público nigeriano. O segundo marido, George Cornwallis West, a deixara em 1913, para se casar com a atriz Patrick Campbell. Porch era 23 anos mais novo do que Lady Randolph, que estava com 64 e três anos mais jovem do que o próprio Churchill. Um amigo comentou: “Winston diz que espera que o casamento não se torne moda entre as senhoras da idade da mãe dele”.

Três anos depois, a mãe de Churchill caiu nas escadas e fraturou o tornozelo. A gangrena fez com que a perna esquerda fosse amputada. Morreu pouco depois. “Ela já não sofre qualquer dor, nem conhecerá a velhice, a decrepitude, a solidão”, escreveu Churchill a um amigo. “Precisava tê-la visto em repouso, depois de terminado todo o sol e o turbilhão da vida. Bela e esplêndida. Desde a manhã, quando sentia dores, trinta anos tinham desaparecido de seu semblante. Ela me fez lembrar o semblante que eu tinha admirado quando criança, ela estava em seu auge, e o antigo mundo brilhante dos anos 1880 e 1890 parecia ter voltado”.

Winston e seu irmão Jack pareciam viúvos, disse um primo. Churchill escreveu ao amigo Lorde Curzon: “Não tenho um sentimento de tragédia, apenas de perda. Ela teve uma vida repleta. O vinho da vida corria em suas veias. Mágoas e tempestades eram conquistadas por sua natureza e, no fim das contas, foi uma vida cheia de luz. Todos nós prosseguimos estrada afora”.

Winston Churchill sempre respeitou a maternidade. Ao saber que sua sogra estava agonizando, escreveu à mulher, Clementine: “Minha querida, eu sofro por você. Uma vida que já se encontra envelhecida e doente ir embora com a maré, após o tempo que lhe foi atribuído ser gasto e a maioria das alegrias ter desvanecido, não é motivo para piedade. É apenas uma parte da imensa tragédia de nossa existência aqui embaixo, contra a qual tanto a esperança quanto a fé se rebelaram. Isso é apenas aquilo que todos nós esperamos e aguardamos – a menos que seja cortada antes de seu tempo – , mas a perda de uma mãe corta o coração e faz com que a vida pareça solitária e com que sua duração seja fugaz. Eu conheço bem o sentimento de amputação por minha própria experiência, três anos atrás”.

Compreensível quando se reafirme, embora ciente da inviabilidade, que as mães não deveriam morrer.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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