Mãe Juju, 80

Mãe Juju, 80

Juvelgina Batista Amorim, mãe de santo do Ilê Maroketu Axé Oxum, ganha R$ 5,8 mil como assistente parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo, onde não tem sido encontrada

Luiz Vassallo e Gilberto Amendola

12 Março 2018 | 14h57

Reprodução de post público no Facebook de Mãe Juju

Juvelgina Batista Amorim, 80 anos, ganha R$ 5,8 mil como assistente parlamentar da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Mãe de santo, ela estava em ‘atividade religiosa’ no interior de São Paulo, na tarde desta sexta-feira, 9, segundo informou ao Estado sua filha, ‘Mãe Vera’, que a acompanhava. ‘Mãe Juju’, como é conhecida, está lotada desde março de 2015 no gabinete da deputada Clélia Gomes (Avante), que está sob investigação por supostamente abrigar funcionários fantasmas.

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Servidores e ex-servidores da Casa que procuraram o Ministério Público para prestar depoimento afirmaram ao Estado que ‘Mãe Juju’ não tem comparecido ao Palácio 9 de Julho, sede do Legislativo estadual, para trabalhar.

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A reportagem compareceu à Assembleia em diversos dias e nunca a encontrou.

O terreiro de Mãe Juju de Oxum, o Ilê Maroketu Axé Oxum, fica em Sapopemba, na zona Leste de São Paulo, em uma rua com o singelo nome de Raio de Sol. A reportagem esteve no local na sexta-feira, 9, para tentar conversar com mãe de santo.

A parlamentar Clélia Gomes está sendo investigada por manter funcionários fantasmas e cobrar pedágio em cima do salário dos seus funcionários. A mãe de santo Juju é um delas. Facahda da casa da mãe de santo, em Sapopemba. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A rua é residencial. O terreiro de Juju fica quase no final da rua. Mesmo de fora, é possível perceber que a propriedade é grande – e que quadros de Juju compunham a decoração da sala. A reportagem tocou a campainha.

Depois de uns minutos, um homem de roupas brancas apareceu na garagem. A reportagem se identificou e relatou o motivo da visita. O homem afirmou que Mãe Juju ‘estava no interior de São Paulo’ e que não havia previsão de volta’. Na viagem, Juju estaria acompanhada de sua filha, a ‘Mãe Vera’.

O homem disse estar ciente das denúncias envolvendo a deputada estadual Clélia Gomes (PHS), mas que apenas ela ou sua filha poderiam comentar sobre o assunto.

Questionada pela reportagem, a filha de ‘Mãe Juju’, admitiu, nesta sexta-feira, 9. “Realmente estamos em atividade religiosa no interior de São Paulo”.

“Todos assuntos referentes ao gabinete da deputada Clélia Gomes são recebidos pela assessoria de imprensa e jurídica do mandato”, indicou.

 

COM A PALAVRA, A DEPUTADA CLÉLIA GOMES

“A Deputada Estadual Clélia Gomes esclarece que as alterações em seu gabinete tratam-se de uma reestruturação organizacional que vem sendo realizada desde o ano passado, por conta da mudança partidária da Deputada, concretizada nesse mês.”

“Já a funcionária citada, realiza um trabalho voltado para as matrizes africanas, nicho no qual a Deputada possui forte atuação, criando inclusive em 2015 a Frente Parlamentar do Respeito e da Liberdade à Diversidade Humana na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, composta por cinco grupos de atuação, dentre eles o “Cultura de Paz e Crença” – no qual a funcionária em questão é uma das gestoras.”

CARTA DE APOIO DE MÃE JUJU A CLÉLIA GOMES

Após a publicação de reportagem do Estado sobre a deputada, mãe Juju divulgou uma carta de apoio nas redes sociais.

Carta de Apoio à Deputada Clélia Gomes

As comunidades tradicionais de terreiro Ibece Alaketu Axé Ogun Mejejê (BA) e Ile Maroketu Axé Oxum (SP), fundadas pelo ilustre e saudoso Manoel Cerqueira do Amorin, Pai Nezinho de Ogun, atualmente lideradas respectivamente pelas iyalorixás Cacho de Omolu, juntamente com seus irmãos carnais Pai Jorge de Oxóssi e Mãe Bem de Oxoguiã, e Mãe Juju de Oxum, em São Paulo, ao lado de Mãe Vera de Oxum, vem a público declarar total e irrestrito apoio a deputada estadual e iyalorixá Clélia Gomes, filha espiritual destes Axés.

Temos a consciência de que o momento é de especulações e difamações inconclusas, desconectadas dos fatos e sem nenhum respeito à história da mulher, zeladora espiritual e parlamentar Clélia Gomes. Clélia Gomes tem construído uma trajetória ímpar de apoio aos terreiros no Estado de São Paulo e em todo o Brasil, mediante toda dificuldade de ser apenas uma gota no atual oceano de conservadorismo e tentativas, algumas com sucesso, de retirada dos direitos das comunidades de terreiro na liberdade de exercício de fé que temos garantido constitucionalmente e manutenção de uma cultura ancestral africana em solo brasileiro.

Por fim, acreditamos na verdade dos fatos e no amplo e incontestável direito de defesa. Não toleraremos a infâmia e acusações descabidas as nossas lideranças religiosas, caso seja necessário, serão defendidas por meio dos dispositivos legais e jurídicos. Convictos do nosso papel como comunidades históricas e formadoras de tantas outras casas filiais, convocamos nossos filhos, netos, bisnetos, tataranetos e demais afiliados a estes axés, a agirem com serenidade e zelo pela nossa história e tradição.

Que Ogun Mejeje abençoe a todos,
Iyá Cacho de Omolu e Iyá Juju de Oxum

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