Mãe, empreendedora, líder, chefe de família, do jeito que a gente quiser

Mãe, empreendedora, líder, chefe de família, do jeito que a gente quiser

Isabel Braga Teixeira*

09 de maio de 2021 | 06h30

Isabel Braga Teixeira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Qual é o preço real da pandemia que estamos vivendo desde 2020 para a vida das mulheres? Ao mesmo tempo em que acompanhamos mulheres brilhando em cargos de liderança de empresas, iniciativas, pesquisas e nações, existe uma corrente oposta que afirma que estamos diante de um possível retrocesso na redução da desigualdade de gênero. Angela Merkel  alertou sobre uma re-tradicionalização da sociedade, com mais mulheres perdendo seus empregos ou mesmo precisando deixá-los para cuidar da família. A diferença salarial entre homens e mulheres faz com que a decisão de quem vai ficar em casa cuidando da família seja mais “simples”.

Um estudo do Boston Consulting Group explica que os pais americanos quase dobraram as atividades domésticas com o coronavírus, mas que as mães ainda se dedicam mais – cerca de 15 horas – que os pais. Quanto maior a produtividade de pais, menor a das mães, e vice-versa, pois alguém precisa cuidar das crianças.  Tanto mulheres grávidas quanto mães de crianças pequenas podem ser forçadas a sair do mercado de trabalho por tempo indeterminado, prejudicando recolocações e extinguindo possibilidades de promoção.

Peraí! Como não lidar com questões tão importantes agora? Ainda não sabemos como tratar a diferença salarial, como a maternidade afeta a elegibilidade de mulheres para cargos, recebimento de investimentos etc. Um dos principais motivos alegados para a diferença salarial entre homens e mulheres está relacionado à maternidade.

Na contramão das crenças do mercado, estudos mostram que as mães adquirem novas habilidades com a maternidade e, com isso, se tornam importantes aquisições para as empresas. O estudo Parenthood and Productivity of Highly Skilled Labor, do Federal Reserve Bank of Saint Louis, nos Estados Unidos, concluiu, após analisar mais de 10 mil mulheres em 30 anos, que as mães, principalmente as com mais de um filho, são mais produtivas que seus coworkers.

Uma reportagem de 2016, da edição americana da Forbes, relata as dificuldades de diferentes CEOs em acelerarem suas startups e engravidarem ao mesmo tempo. O que fica evidente é que a maternidade gera desconfiança em investidores que sequer conhecem essas mulheres pessoalmente ou suas capacidades de gestão, mas que poderiam julgá-las consciente ou inconscientemente. O interessante é que esses julgamentos vinham tanto de homens quanto de mulheres. A reportagem também divulga uma pesquisa da Microsoft feita com 500 empregadores e 2 mil mulheres, na qual 62% dos empregadores disseram que as mães são melhores em equipes e dois terços das mães disseram que se tornaram ainda melhores em multitarefas depois de terem filhos.

Sou empresária há mais de 10 anos e, no meio do caminho, tive a minha primeira filha, Eugenia. Fiquei grávida novamente, dessa vez de um menino, Benjamin, e no meio da pandemia me vi questionando se deveria compartilhar essa informação de minha vida privada, mas que interfere diretamente na minha visão de mundo, crenças e até na minha maneira como lidar com os outros, no meu ecossistema de trabalho. Desde que a minha primeira filha nasceu, sinto que melhorei minha produtividade, empatia e saúde. Já abri dois escritórios (SP e RJ), trabalhando 7 dias da semana, cresci a minha empresa, fiz quatro rodadas de captação de investimento, me tornei melhor líder. Por outro lado, ao olhar para os meus filhos, sinto que posso ser um exemplo dentro de casa de que é possível trabalhar, fazer o que se ama e construir uma família.

O fato é que as mulheres estão trabalhando, empreendendo, levantando capital e lidando com a crise, enquanto grávidas e após terem filhos. Empreendedoras escondem a maternidade (ou precisam esconder) para sobreviver neste mundo de negócios ainda cruel com as mulheres. Nada é dito claramente. Nunca ouvi: não vou me envolver, não vou investir, não acredito em sua ideia ou empresa porque você é mulher. Mas isso não quer dizer que não tenha acontecido. O preconceito velado, a meu ver, é o mais difícil de ser combatido. A “cultura bro” é algo forte no mundo de startups, principalmente de tecnologia. É só olhar os números. De acordo com artigo recente da revista Inc., menos de 3% de todo o investimento de VCs (Venture Capital) no mundo vai para empreendedoras mulheres.

Como dizer que esse preconceito não existe? Quando existem menos mulheres na sala e na tomada de decisão, sabemos que nossos pontos de vista e oportunidades podem não ser compreendidos. Por que homens ainda são tratados como as “promessas” enquanto as mulheres precisam provar tanta coisa para que seu potencial seja compreendido? Como lutaremos para não deixar que efeitos Covd-19 piorem ainda mais esse percentual, dado que não sabemos como será o retorno dessas mulheres para suas rotinas, como irão se reposicionar no mercado? Já é realidade que a taxa de artigos publicados por mulheres tem caído drasticamente, e, portanto, teremos menos mulheres pleiteando bolsas de estudo em programas de mestrado e doutorado.

Enquanto luto na arena, todas essas questões me rodeiam. Observo, penso e me posiciono. Com medo, mas enfrentando. Minha experiência como mãe mudou profundamente a forma como enxergo a maternidade e o trabalho. A vida pode ser leve e difícil, todos os problemas precisam ser enfrentados e a maior parte deles tem solução. Os problemas ganharam tamanho real depois que me tornei mãe e contribuíram para que minha visão de mundo se tornasse mais rica, com maior nuance. Hoje consigo olhar mais claramente os diferentes ângulos dos assuntos antes de tomar uma posição. Mesmo que as inseguranças quanto à evolução do lugar feminino ainda me preocupem e tirem o sono, continuarei encarando as dificuldades de cabeça erguida. Empreender e ter uma família, da forma como a gente quiser, tudo ao mesmo tempo. Por que não?

*Isabel Braga Teixeira, CEO e fundadora do ClosetBoBags

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