Lute como uma garota. Jogue como a Marta

Lute como uma garota. Jogue como a Marta

Emanuela Carvalho*

23 de junho de 2019 | 09h00

Marta. FOTO: RENER PINHEIRO/MoWa Press

O futebol imita a vida. Qualquer associação que se faça entre os 90 minutos dentro do campo e o tempo passado fora dele, com momentos da nossa vida, nos comprovará que isso é verdade.

Poderíamos começar falando sobre as frases de efeito do futebol que servem de exemplo para a nossa vida, tipo autoajuda: “o jogo só acaba quando termina.”; “a vida é como um jogo de futebol, uma hora você ganha, outra você perde”; “entre amar e ser amado, prefiro jogar futebol”, dentre outras pérolas, de quem, infelizmente, desconheço a autoria. Mas bastaria apenas pensar no agora: Copa do Mundo de futebol feminino.

É impossível não traçar comparações para percebemos o quanto no futebol – e na vida – a tão praticada superioridade masculina nos prejudica (a nós mulheres) em relação aos homens, ao longo da nossa história e se perpetua na fala e no pensamento de quem acredita que o machismo não existe e que feminismo é coisa de mulher que quer ser homem.

Falando sobre a história do futebol, o esporte começou na Inglaterra, lá pelos fins dos anos de 1880. Rapidamente o football se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil, onde virou paixão nacional. Até então não se falava em futebol feminino, mas quando, muitos anos depois, lá por volta de 1940, as mulheres começaram a se interessar pelo esporte, o rebuliço começou. É engraçado perceber o quanto a mulher incomoda. Observe: tantas coisas que são naturalmente feitas pelos homens, quando são assumidas por mulheres, assustam! Não seria diferente com o futebol. Bastou que um clube publicasse um anúncio nos jornais convocando mulheres para jogar, que a sociedade machista organizada tratou de enviar ao então Presidente Getúlio Vargas uma carta de protesto. Como podem essas mulheres querer jogar bola?!

A tal carta, atribuída a um certo José Fuzeira, trazia coisas do tipo: “a mulher não poderá praticar esse esporte violento sem afetar seriamente o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que a dispôs a ser mãe. (…) além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes”. O texto chegou ao Ministério de Educação e Saúde, que à época confirmou as inúmeras preocupações da sociedade com a mulher. A resposta deixou claro que o movimento que incentivava a prática do esporte pelas mulheres merecia a reprovação das pessoas sensatas – os tais cidadãos-de-bem da época – já que era a representação de um espetáculo ridículo, que colocava também em risco a mulher, por ser uma atividade violenta, incompatível com as possibilidades do organismo feminino.

A pressão foi tamanha que em 1941 surgiu o Decreto-Lei 3.199 (1) que no art. 54 afirmava: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Mas se isso deixava as coisas um tanto dúbias, o regime militar esclarecer de vez e em 1965 tornou a proibição expressa (2): “Não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”.

Proibidão. Assim estava o futebol feminino. Até 1979, quando a deliberação acabou revogada. Mas não à toa, e sim, em consequência da insistência das mulheres que praticavam o esporte de forma irregular, como resistência.

E hoje, em 2019, a gente vê pessoas comemorando o fato de que a imprensa está cobrindo a Copa do Mundo de Futebol Feminino. Isso não é fato a ser comemorado, é o retrato da vergonha! Por que não fizeram antes? E comemorar que algumas, talvez 1 entre 100 empresas, estão liberando os funcionários para assistir aos jogos da Copa, como fazem com o futebol masculino… tem mesmo comparação? Não! Não tem! E não tem, repito, motivos para comemorar. Se há invisibilidade no futebol feminino isso se deve a mim e a você, que não valorizamos o esporte – na prática feminina – o suficiente para que tudo isso acontecesse de forma natural, como acontece com os homens.

No jogo em que Marta se consagra a maior artilheira das Copas do Mundo – de todos os tempos e gêneros! – a imprensa traz um destaque à cor do batom que ela usava. O que isso significa diante de termos uma mulher que superou homens na história da Copa? Basta reler esse texto para imaginar o quanto foi e é difícil para as mulheres jogarem e destacarem nesse esporte, o que dizer então de superarem jogadores. Marta foi eleita a melhor do mundo 6 vezes! Alguém conseguiu esse feito? Mais precisamente, algum homem?

Ainda sim, Marta não tem patrocínio de material esportivo. E não porque não houve proposta, mas porque o que foi oferecido a ela era muito, muito abaixo do que é oferecido a um jogador no futebol masculino. Então, essa mulher, que nos representa e ofereceu a sua conquista a todas as mulheres, decidiu que usaria essa negativa como protesto, como luta pela igualdade de gênero.

O futebol imita a vida em muitos aspectos. E vale lembrar que, se estamos comparando, a seleção feminina nos mostra que é possível ver mulheres unidas, lutando pelos mesmos ideais. E não basta apenas falar em Marta, mas poderia falar sobre Formiga, a jogadora baiana que é a única pessoa do mundo a participar de 7 Copas ou de Cristiane, que em 2012 se tornou a maior artilheira do futebol feminino dos Jogos Olímpicos e é a atual artilheira da Copa do Mundo da França.

As histórias são inúmeras e podem nos dar exemplo de como a desigualdade de gênero é forte. A luta das mulheres, tendo ela o nome de feminismo ou não – pois o título é o que menos importa – precisa, deve ser valorizada, fortalecida e estimulada.

É tarefa nossa, de homens e mulheres, torcermos para que conquistas femininas aconteçam dentro e fora do campo, levando em conta que, enquanto a bola rola, na vida ou no gramado, o preconceito não deve encontrar lugar, nem na arquibancada.

Dedico esse texto para Marta, a melhor. E a todas as “Martas” que estão dentro de nós.

(1) https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238-publicacaooriginal-1-pe.html

(2) http://cev.org.br/biblioteca/deliberacao-n-7-2-agosto-1965/

*Emanuela Carvalho, professora e autora dos livros A Terceira Pessoa Depois de Ninguém e Antes Feliz do que Mal Acompanhada

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